terça-feira, 18 de março de 2014

AVENTURA: SALAR DE UYUNI E LAGUNAS BOLIVIANAS VIA ACRE



Salar de Uyuni e Lagunas Bolivianas - Via Acre

1ª Parte – São Paulo-Acre


A viagem de São Paulo ao Acre é tranquila apesar da distância. São 3.800 km de boas estradas pavimentadas. No trecho Paulista feito pela Rodovia Marechal Rondon, apesar dos inúmeros pedágios onde moto também paga, foi onde encontramos as piores condições do asfalto e a preocupação com os radares é constante.

No Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre as estradas de pista única estão bem conservadas, com um pequeno trecho em obras no Acre, não temos pedágios nem radares.
De quando em quando alcançamos alguma carreta gigantesca transportando peças da usina hidroelétrica que está sendo construída no Rio Madeira por vezes fechando totalmente a estrada o que não é problema para as motos que sempre encontram alguma passagem.
Dormimos em Três Lagoas (MS), Rondonópolis (MT), Cáceres (MT) onde saboreamos um pintado na brasa inesquecível, Ouro Preto do Oeste (RO) e Rio Branco (AC).
Em Rondônia, na BR 364, entre Porto Velho e a divisa com o Acre, temos que atravessar o Rio Madeira numa balsa debaixo de um Sol de 38° C.






As motos foram guardadas com toda segurança em Rio Branco para a segunda fase da viagem que seria feita dias depois, conhecer a novíssima Rodovia Interoceánica Sur, que liga o Acre ao Pacífico atravessando o Peru e cruzando a cordilheira por um dos seus Pasos mais sinuosos e interessantes onde em poucas horas passamos do clima quente e úmido da floresta amazônica para a aridez da puna andina e o ar rarefeito do Paso Abra Pirhuayani. Nesta primeira fase fui confortavelmente pilotando uma GS 1200 Adventure









(foto de Julio Fiadi)

2ª Parte

O Júlio Fiadi e o Eugenio Mussak foram para Rio Branco para conhecer a Interoceánica Sur, estrada recém inaugurada que liga o Acre ao Pacífico cruzando o Peru, construída por um consórcio liderado pela Odebrecht Peru.
Montados nas suas BMW GS Adventure e KTM 990 Adventure respectivamente e com os pneus Metzeller Karoo amarrados na garupa partiram em direção a Cusco onde encontrariam suas esposas para visitarem Machu Picchu. A moto do João Cordeiro, que eu tinha levado para o Acre, já tinha voltado para São Paulo, de caminhão. Enquanto levávamos as motos para o Acre surgiu um compromisso profissional irrecusável e inadiável para o João que desistiu da viagem.
Dos quatro amigos que programaram esta viagem agora restaram apenas dois que sairiam em direção a Cusco no Peru pela nova Rodovia Inter Oceánica Sur.
Os ramos 2 e o 3 desta estrada que liga Iñapari, na fronteira com o Acre, a Cusco tem 656 km de asfalto novo onde podemos sentir, em poucas horas, a grande diversidade de clima entre a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes. Nada como uma motocicleta para sentirmos em toda sua plenitude estas diferenças.
Ao chegar a Puerto Maldonado o Rio Madre de Dios é atravessado por uma balsa muito precária. A ponte pênsil, maior do Peru, que já foi inaugurada estava interditada para sanar problemas estruturais. Alardearam durante sua construção que ela foi projetada para resistir a tremores de terra e, por conta disto, no primeiro tremor que houve depois da inauguração, toda a população correu para se proteger na ponte causando o seu fechamento. Será???

(foto de Julio Fiadi)

Este percurso, de Rio Branco no Acre, até Cusco no Peru pode ser feito tranquilamente em dois dias dormindo em Puerto Maldonado. Não há problemas de abastecimento, existem alguns “grifos” no caminho e na maioria dos vilarejos a gasolina pode ser comprada à granel em casas particulares.
Fui direto para Cusco de avião e enquanto o Julio e o Eugênio visitavam Machu Picchu com as esposas peguei a KTM na qual iria continuar a viagem e fui conhecer a nova estrada.
Fui até Mazuco, já na região amazônica e voltei para dormir em Cusco no mesmo dia. Foram 640 km, ida e volta, de Cordilheira dos Andes e muita chuva na Amazônia.
Para o Soroche, mal das alturas, existe no Peru um medicamento encontrado em qualquer farmácia e vendido sem receita chamado SOROJCHI PILLS a base de AAS, CAFEINA e SALÓFENO (um precursor do AAS) que pode ser tomado de 6/6 h preventivamente. É simplesmente um analgésico e estimulante e para quem não for alérgico a seus componentes ou não esteja com alguma coagulopatia não há contra indicações. Outros preferem tomar diuréticos que fisiologicamente devem atuar melhor contra o mal das alturas.


(foto do Julio Fiadi)

(foto do Julio Fiadi)

(foto do Julio Fiadi)

(foto do Julio Fiadi)

(foto do Julio Fiadi)

(foto do Julio Fiadi)




3ª Parte

Era o começo da volta. O Eugênio já estava satisfeito com sua primeira e grande viagem de moto.
Foram quase 5.000 km de São Paulo a Cusco dos quais 1.000 km solo, de Rio Branco pra frente por divergência de datas. Ele pediu que eu trouxesse sua moto de volta e fizesse companhia para o Júlio que pretendia voltar pela Bolívia atravessando de norte a sul o Salar de Uyuni e chegando a San Pedro de Atacama pela região das Lagunas Bolivianas entrando no Chile pelo Vulcão Licancabur. Daí a existência dos pneus karoo que foram levados na garupa das motos até Oruro onde seriam instalados.
Saímos os dois de Cusco, o Julio na sua veterana BMW GS Adventure 1150 com mais de 70.000 km e eu na novíssima KTM 990 Adventure do Eugênio em direção a Desaguadero, por onde entraríamos na Bolívia.
Como saímos tarde de Cusco chegamos à noite em Puno e pernoitamos num belo hotel às margens do Lago Titicaca que não tem garagem coberta. Autorizaram o estacionamento das motos num corredor ao lado do elevador após atravessarmos o loby do hotel subindo os degraus da entrada.




Na fronteira em Desaguadero o primeiro contato com as autoridades bolivianas é irritante. Longas filas, funcionários inventando inúmeras taxas alfandegárias e ainda tendo a cara de pau de pedir contribuição para Nossa Senhora não sei das quantas. Pois é, já estamos na Bolívia.
Era 3 de setembro, sábado, e Oruro  nosso destino onde os pneus seriam trocados.

Na chegada em Oruro, numa faixa de redução de velocidade, fui reduzindo e quando me preparava para ultrapassar os carros à frente fui atingido por traz por um boliviano alcoolizado que para minha sorte me jogou na pista contraria por onde, agora, não vinha ninguém. Os quatro pneus de cravos que eu levava na garupa devem ter amortecido a pancada e ainda no ar pensei: putz, acabou a viagem!
O Júlio que já ia arrancando o motorista da cabine pra um acerto de contas desistiu ao ver seu nariz sangrando e concordou com os apelos de um senhor que pedia pra que não agredíssemos o motorista.
Saímos do local do acidente andando com a moto, agora sem as bolsas laterais que foram arrancadas, e na delegacia o teste do bafômetro deu 0 pra mim e 1.5 pro boliviano. Muito alto segundo os policiais. Disseram que o motorista bêbado pode pegar de 4 a 8 anos de cadeia e perder a habilitação pra sempre. Será????



















4ª Parte

Com a KTM despojada de suas bolsas laterais, todos os piscas recolocados em seus lugares e devidamente fixados com silver tape, sem o espelho retrovisor direito e com os Karoo instalados partimos em direção ao Salar de Uyuni quatro dias depois do acidente.
O atraso foi devido à recuperação do Julio que sentiu uma fortíssima fisgada nas costas ao evitar que sua moto fosse ao chão na segunda feira na troca dos pneus. Na tentativa de usar o apoio lateral pra descolar o pneu sem câmara o mecânico quase derrubou a moto e ao segurá-la o Julio sentiu uma forte fisgada nas costas. Do lado do nosso hotel havia uma clínica com um bom serviço de fisioterapia ao que ele se submeteu intensamente e melhorou muito em dois dias de tratamento.



A 120 km ao sul de Oruro, chegando em Challapata, onde deixaríamos a Rodovia 1 para ir pela 30 a Uyuni o pneu traseiro da KTM esvaziou por conta de uma mordida na câmara de ar que o mecânico de Oruro não conseguiu evitar ao tentar recolocar o bico da válvula no orifício do aro.
Pra nossa sorte o Diógenes, borracheiro instalado neste cruzamento, tinha todos os equipamentos necessários para um belíssimo serviço e conseguimos comprar numa loja vizinha uma câmara de ar nova “Made in Brazil” quase igual a original e prosseguimos viagem.
Uma boa ideia para os futuros viajantes é trocar os pneus com o Diógenes em Challapata, é aqui que acaba o asfalto e o boliviano é gente finíssima e está muito bem equipado.
A 172 km de Challapata, por uma estrada de ripio que vai piorando muito à medida que nos aproximamos de Coquesa, vilarejo situado na entrada norte do Salar de Uyuni a 3.600 m de altitude no sopé do enigmático Vulcão Thunupa, chegamos ao hotel que procurávamos.


(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)  Hotel em Coquesa

(foto de Julio Fiadi)

Vulcão Thunupa

5ª Parte

O Salar de Uyuni, do tamanho da Bélgica, é trafegável quase o ano todo. No período das águas pode apresentar sua superfície coberta por uma fina lâmina d'água tornando o tráfego perigoso e contra indicado.
Numa faixa de 200 m nas suas bordas o tráfego deve ser evitado, a camada de sal pode ser fina e misturado com a terra do local esconde armadilhas para os viajantes. Possui mais de uma centena de ilhas e a mais importante é a Isla Pescado. Sua superfície, ora lisa, ora composta por curiosos hexágonos convida para uma acelerada mais forte e a navegação é feita por referencias nas margens do salar, para os íntimos, ou pelo GPS, como se estivéssemos num mar de sal.
O Aldo, boliviano proprietário do hotel em Coquesa e pra nossa sorte também do hotel onde estaríamos dois dias depois, na Laguna Hedionda, nos deu dicas importantes de navegação e se prontificou em esperar-nos no segundo hotel com gasolina suficiente para completarmos a viagem até San Pedro de Atacama. Nesta travessia, de Uyuni até San Pedro de Atacama não há postos de abastecimento.
Além dos bujões extras de gasolina é interessante encomendar, na reserva do hotel na Laguna Hedionda, combustível para o reabastecimento do segundo dia da travessia. Com esta providência, teoricamente não seria necessário levar gasolina em bujões, mas como os tombos são imprevisíveis e os erros de navegação também ter uma reserva pode ser a diferença entre dormir naquele frio a 4300 m ou no conforto de um hotel em San Pedro de Atacama.
O Aldo também contou sobre as tremendas dificuldades que encontra para vencer a resistência do povo da região contra seu empreendimento inclusive com várias depredações do hotel, apesar de todos os cuidados com a ecologia e preocupação em não ferir o padrão arquitetônico da região. Constrangido, mostrou o sinal da última agressão que sofreu no seu hotel, as marcas dos dentes que uma anciã da região deixou no seu braço direito.
Existem várias entradas no salar, geralmente balizadas por portais rudimentares, pedras ou pneus velhos e sua travessia deve ser cuidadosa. A parte alagada tem fundo pedregoso ou de lama.
Os motoristas da região preferem se deslocar de um vilarejo ao outro pelo salar evitando as “estradas” locais que são péssimas.
De Coquesa a Uyuni, pelo salar, a navegação é tranquila, com os devidos cuidados para as motos na entrada do salar onde andamos algumas dezenas de metros com água na altura dos cilindros da GS com o fundo de pedras e na chegada a Colchani, vilarejo 22 km ao norte de Uyuni, onde a extração de sal deixa a trilha ruim para as motos.







(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)




(foto de Julio Fiadi)



6ª Parte


A primeira providência a ser tomada em Uyuni é dar uma boa lavada nas motos.

(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)

Quem vai pro Chile, por qualquer caminho, pode fazer a migração em Uyuni quando o “sistema” está no ar. Não foi o nosso caso. Não há problema, nas proximidades do Paso de Ollague pra quem for por Calama tem migração e pouco depois da Laguna Colorada, a 5.000 m de altura, tem um posto da migração boliviana num desvio a direita a dez minutos da estrada principal indicado por uma placa sobre a estrada, não tem erro. O boliviano que nos atendeu foi muito rápido e solícito e nenhuma taxa foi exigida.
O percurso que escolhemos para alcançar San Pedro de atacama passando pelas Lagunas, Hedionda, Colorada e Verde e chegando ao asfalto do Paso de Jama ao lado do Vulcão Licancabur tem uns 540 km que devem ser percorridos em dois dias.
Dos 280 km do percurso do primeiro dia 250 são relativamente tranquilos. Vamos pela estrada que entra no Chile pelo Paso de Ollagua. É uma estrada de ripio, com alguns trechos em preparo para o asfalto, outros com muita costela de vaca e o perigo da poeira no cruzamento com os caminhões, que felizmente são poucos. Neste trecho dá pra manter uma boa média com toda segurança.
Num determinado ponto desta estrada onde já avistamos o fumegante Vulcão Ollaue, próximo ao Passo
Ollague viramos radicalmente à esquerda, para o sul, por uma trilha de 30 km que nos leva a
Laguna Hedionda e é um trailer do que será a viagem do dia seguinte. Muita areia, subidas ingrimes 
com pedras soltas e nos trechos com um pouco mais aderência costelas de vaca.
O hotel do Aldo em Laguna Hedionda é muito confortável e ele, conforme prometido, nos
esperava com a gasolina encomendada. O nome da laguna se deve a liberação de gás sulfídrico e, felizmente, não sentimos o odor hediondo por que o vento estava do nosso lado.
(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)

O trecho do dia seguinte seria de 260 km dos quais 230 até o asfalto do Paso de Jama ao lado
do Vulcão Licancabur e o Aldo garantiu que iria melhorar muito depois dos 30 km iniciais.
Ficou a pergunta, iria melhorar muito pra que tipo de veículo? Pra moto não era!
Neste trecho da viagem, sempre acima dos 4.000 m senti um cansaço exagerado. O Julio tirou
de letra.
A paisagem aqui é de tirar o fôlego duas vezes, uma pela beleza e outra pela altitude. Após
três terrenos comprados por mim, algumas tentativas de compra do Julio e várias quase
atoladas da GS no areão chegamos ao asfalto do Paso de Jama fazendo esta jornada de 260
km em 10 h de pilotagem.

(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)

No último posto da fronteira boliviana, ao lado do Vulcão Licancabur, o policial de plantão
pediu uma taxa que segundo ele só existia ali e quando o Julio quis o recibo dizendo que era
periodista e precisava prestar contas na empresa ficou muito simpático e disse que não era
preciso.
Como é bom descer aquele ladeirão até San Pedro, à noite e naquele asfalto maravilhoso.
No dia seguinte voltamos até o Paso de Jama para vê-lo ainda com gelo antes de levarmos as
motos para Santiago, pela Pan Americana, onde a GS seria revisada e a KTM recuperada da
colisão traseira em Oruro pra outra fase da viagem mais pra frente.


(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)

(foto de Julio Fiadi)





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