terça-feira, 23 de junho de 2015

MZ NVA - militar



O Leitor Willian, de Brasilia, DF, me procurou ha alguns dias falando sobre a restauração que fez em sua MZ. Willian, alem de ter bom gosto para motos, é um fotografo de mão cheia e escreveu o texto abaixo com tanto capricho, que resolvi compartilhar com você, amigo leitor!  Um exemplo de bom gosto e criatividade ímpar nessa restauração:


Fiquei admirado quando me deparei pela primeira vez com uma motocicleta MZ. Lembro-me muito bem, era de cor azul e estava exposta em uma concessionária de carros. Isso foi em 1985, e logo depois, no ano seguinte adquiri uma novinha. Fiquei com ela durante 10 anos e o hodômetro chegou a ultrapassar 100.000 km!


A marca MZ, foi trazida para o Brasil pela extinta fábrica FBM, lá do Rio Grande do Sul. Foi remodelada na aparência para parecer uma moto moderna nos anos 80.  A partir de kits importados vindos da extinta Alemanha Oriental, do modelo ETZ 250, foram agregados alguns componentes fabricados no Brasil necessários para se alcançar os índices de nacionalização requeridos pelas normas da época.

Assim nasceu o modelo brasileiro FBM MZ RS 250, um modelo visualmente diferente de sua irmã germânica, a ETZ 250. Fora concebida com um design moderno que retratava esportividade, no entanto o projeto original ETZ não estava comprometido com o alto desempenho.

As motos MZ foram concebidas em uma conjuntura socialista. Sua produção não estava destinada aos padrões de consumo massificados. Não se preocupavam com estratégias industriais típicas do capitalismo. Sua linha comercial não estava comprometida com o alto desempenho e sim, principalmente, para com a durabilidade, qualidade, simplicidade e facilidade de manutenção.

A fábrica brasileira FBM apostou na aparência esportiva e foi até bem sucedida, conseguiu comercializar algo em torno de seis mil motocicletas entre os anos de 1985 até 1987. Logo após o fechamento da fábrica, outras trezentas ou mais foram montadas artesanalmente como protótipos advindos do que restou dos estoques.

O projeto nacionalizado RS e, posteriormente, RSJ tem maior volume e alguns componentes nacionalizados não se comparam em qualidade com os da ETZ. Nesse ponto, persiste a impressão de que o modelo nacional não foi totalmente resolvido.

Decidi procurar uma modelo FBM/RS 250. Adquiri uma encostada há muitos anos com a estrutura em ordem e com uma imensidão de problemas. Iniciei a desmontagem e a separei os componentes que não me interessavam mais, a exemplo do tanque, carenagens, assento e outros penduricalhos, restando o quadro e os componentes genuínos MZ. Então, iniciei o processo de pesquisa e planejamento. A minha intenção desde o inicio seria de realizar uma restauração seguida de uma customização.

Pesquisei a viabilidade de reaver algumas características da linha ETZ ausentes no modelo nacional, pelo menos em parte. Cheguei ao seguinte entendimento: Para o alcance deste objetivo, o projeto não precisa de nenhuma modificação estrutural de modo que a dirigibilidade e a segurança permanecem inalteradas. Não é uma acomodação de peças, quase tudo encaixa perfeitamente e inexiste a necessidade de soldas.

Percebi, então, que existe uma padronização entre os elementos das motocicletas MZ que permitem a intercambiabilidade dos componentes dentre a linha ETZ250/251/301.

Visualmente o projeto foi inspirado nas MZ NVA, utilizadas para fins militares durante os anos 70/80 no leste europeu, e pelo magnetismo provado pela TS 250 - irmã mais velha da ETZ.







Toda parte mecânica e elétrica foi refeita, substituído e/ou completado. Tudo genuinamente MZ - made in germany – Inclusive o tanque e o farol que são do modelo TS 250. Exceto, por opção, o assento foi customizado.





Aqui vale uma pausa para comentar algumas características da motorizarão ETZ ainda não descrita em revistas ou sites nacionais:

Este motor dois tempos comporta até 300 cilindradas - isso é bom - pois não há necessidade de encamisamento do cilindro, e ainda é possível retificar várias vezes. O cabeçote precisa ser trabalhado.

A parte elétrica adota o sistema de alternador que é praticamente a de um automóvel de época. O sistema de ignição depende de uma bateria carregada, platinado e bobina automotiva. Nada de circuito flexíveis, soquetes e peças de plásticas. Existem kits eletrônicos para substituir todo o sistema elétrico ou somente o platinado/bobina.

A MZ não possui válvulas de palheta na admissão, por isto é que ela possui um reservatório entre o carburador e o filtro de ar para amortecer as pressões vindas do movimento do pistão. Então optei pela tampa lateral esquerda da ETZ 251/301, um bojo todo feito de alumínio e que combina com a moto.






A embreagem é ajustada ao eixo do virabrequim sem chaveta, uma engenhosidade denominada de Cone Morse, que proporciona uma resistência de encaixe igual de uma peça única, portanto, para ser desmontado necessita de um sacador específico e robusto.  Os rolamentos do virabrequim são os mesmos utilizados na roda traseira do Fusca!

 E tem, ainda, o grande lance da coroa e corrente lacrada que garante, comprovadamente, a longevidade do sistema, limpeza externa e facilidade da retirada da roda traseira sem necessidade de retirar a coroa e a corrente. No todo, não existem plásticos na motocicleta, tudo é de alumínio, aço e borracha.

O processo de reconstrução acaba sendo de grande valia, pois no decorrer das atividades e em busca de soluções você acaba adquirindo experiências sobre determinadas matérias.  Às vezes, para muitos, torna-se tão relevante quanto à própria finalidade. Você não pode depender de tudo e de todos, você precisa se esforçar e dominar pelo menos alguma atividade: mecânica, eletricidade, pintura..., e se você é um autodidata se dará muito bem. Adicionei em anexo algumas fotos deste passatempo que por si só evidenciam algumas etapas do desenvolvimento e o resultado final.

A moto funcionou na segunda pedalada! Grande foi a minha satisfação! Bom, cheguei onde queria e fiquei satisfeito com o resultado, agora só falta testar a moto.

Consta em vídeos na internet (https://www.youtube.com/watch?v=p4hbCy-EBSE) que a motocicleta com o motor de 300cc, testado em dinamômetro, gera potência de 28hp a 5500rpm medida na roda traseira e com o escapamento original. Isso me animou bastante.

A “moto verde” esta com pistão de 300cc e com escapamento dimensionado próprio para “ETZ preparada” que possivelmente acrescentou alguma potência a mais. Também está com ignição eletrônica. Vale considerar que o sistema de ignição tradicional funciona muito bem. A relação coroa e pinhão foi reduzido para 15/45Z.

Por fim, seguem algumas fotos panorâmicas que tirei durante a primeira volta. A impressão sobre o motor de 300cc é de ele que possui melhor retomada de velocidade e, na subida, não perde o fôlego. A suspensão traseira ficou meio rígida, os amortecedores traseiros originais da ETZ serão substituídos. Também preciso melhorar o assento. Ademais, sem muitas pretensões com o alto desempenho e finalidade, a motocicleta demonstra segurança e tudo funcionou perfeitamente.

Dedicar-se nas horas livres a algum hobby que você goste, é um hábito saudável para melhorar a qualidade de vida. Ajuda a não ficar pensando em problemas do dia a dia nas suas horas de lazer, isso faz com que nosso organismo funcione bem melhor e se você não tem tantos problemas assim, ajuda a combater o tédio.


Segue o e-mail do Willian, pra quem quiser entrar em contato:  willian.mz.rts@gmail.com 

2 comentários:

  1. Nossa que legal esta reportagem, nos meus tempos de Agraleiro, até ponderei em pegar uma RSJ vermelha, fiz teste drive e tudo.. porem a falta de concessionarios fizeram repensar e acabei adquirindo outra Agrale, uma Elefant16.5.... mas a moto é um verdadeiro trator, duravel e relativamente bem confortavel.... Parabens ao proprietario pelo lindo trabalho...!!
    Giancarlo Faria - Agrale Elefant Dakar 30.0 - 1987

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  2. Realmente um belo trabalho de restauração. Sensacional.
    As MZs são realmente duráveis, e aqui em São Carlos, algumas estão bem cuidadas também, sem chance de negócio.

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