quinta-feira, 7 de julho de 2016

Algo ficou para trás...

Os números não são claros, dados muito antigos, fontes diversas, e a qualidade desaparece.

Mas, considerando-se que a produção de motocicletas começou pra valer no Brasil em 1971, somente em 1977 atingimos a produção de 35.000 motocicletas anuais, e em 1980 a produção chegou a 185.000 unidades, não seria loucura afirmar que: Nos idos de 1980 eram poucos felizardos a circular de moto nas ruas, certamente menos de 500.000 motocicletas em circulação, considerando ai as importadas e as pequenas nacionais.

Hoje a frota brasileira é estimada em 23.200.000 de motos segundo o Denatran (considerando ciclomotores, motocicletas e motonetas).

Bem, não precisa ser nenhum gênio pra perceber que a frota aumentou, e aumentou pra valer, basta olhar em volta, e vemos um mar de motos em cada semáforo,

                                                              Mas algo ficou pra trás...




Durante um passeio de lancha na baia de Paraty, RJ, notei que os navegantes (tanto "lancheiros" - categoria na qual me enquadro, quanto "velejadores" - a maioria naquela região) costumam cumprimentar-se, acenando, quando esses veículos se cruzam com relativa proximidade. Pouco importa se é um iate de 94 pés ou a lanchinha do sorveteiro com cerca de 20 pés, ou o pescador em sua traineira...quase todos se cumprimentam.

Em outra ocasião, entre os anos de 2004 a 2008, com um jipe Troller, frequentei grupos de jipeiros, fiz lá as minhas trilhas e também algumas aventuras (como essa pela transamazônica e cordilheira peruana por exemplo) - e me recordo com clareza que, jipes de qualquer marca e modelo, ao se cruzarem em vias de mão simples, trocavam cumprimentos.  Se era outro da mesma marca então, podia preparar-se para uma pequena festa, com buzinadas, piscadas de farol e acenos.

Isso me fez lembrar de quando comecei no motociclismo, depois, mais tarde, em minhas primeiras viagens: Sempre que encontrávamos um irmão em sentido contrário, acenávamos... se o motociclista estava parado no acostamento, logo oferecíamos ajuda e vice versa: eramos ajudados quando nos encontrávamos naquela situação.

Nos anos 1990 isso começou a ser menos frequente, dos anos 2000 em diante, me flagrei diversas vezes acenando pra "ninguém", não tendo o confortante e agradável aceno de volta...

Mas eu insistia em acenar, afinal de contas a cada tantos motociclistas que cruzavam comigo, um me acenava de volta e aquilo tinha um sabor especial, era como se dependesse unicamente de mim manter viva essa tradição.

Não adiantou, por mais que eu tivesse rodado pelo Brasil com essa "missão secreta", que eu me auto-atribui, não fui capaz de manter viva essa tradição, que hoje, apenas os velhos motociclistas cultivam.

No começo, relutava em acreditar que isso estivesse acontecendo, preferia me enganar dizendo que "naqueles tempos" a maioria das estradas era de pista simples e que a proximidade entre os veículos que se cruzavam tornava mais fácil a visualização do outro motociclista...

Eu "culpava" também o aumento da velocidade, tanto das motos em si, como da permitida nas vias...se antes nos cruzávamos a 80km/h x 2 (ou menos), hoje nos cruzamos a 110km/h x 2 (ou mais).

Ficava me perguntando, porque essa tradição acabaria?  troca de gerações? velocidade nas estradas? as pistas duplas? rivalidades?

... Mas poxa, porque então os jipeiros até hoje se cumprimentam?  e os navegantes?

Concluo que: Lamentavelmente, cerca de 30 - 40 anos depois, essa tradição simplesmente acabou. 

Se não nos ajudamos mais nos acostamentos por termos medo de assalto, não somos ajudados também quando precisamos. 

Se não trocamos acenos mais durante nossas jornadas, deixamos morrer lentamente o espirito do motociclismo, da irmandade e fraternidade, que nos unia, que nos tornava únicos e especiais, em um mundo de automóveis e caminhões.  

E, as novas gerações que ai estão, sendo maioria absoluta nas 23.200.000 de motos que circulam atualmente, não vão conhecer o gosto de medir a velocidade da moto usando a palma da mão, perceber que viajava rápido demais, quando, ao acenar pro amigo que vinha em sentido contrário e notar que sua mão foi pelo vento empurrada pra trás com força demais...

No entanto, ainda que não carregando mais a responsabilidade secreta de manter viva essa tradição, apenas por prazer e respeito a meus semelhantes - bípedes por opção: Eu ainda aceno!

Portanto, se acontecer de você cruzar comigo por ai, vai me reconhecer facilmente pela mão esquerda levantada, exibindo a face surrada da velha luva,  pouco antes de nos cruzamos nos caminhos da vida.

A gente se vê por aí.

4 comentários:

  1. O ato de cumprimentar um "Irmão" na estrada, ainda é espantoso, em pleno século 21.
    Sou do tipo que tomo a iniciativa, e em estradas de pistas simples, geralmente recebo o cumprimento de volta. Já nas rodovias de pistas duplas, é mais raro, mas aceno mesmo assim.
    Nas de pistas simples, mesmo estando sozinho, em muitos casos, pilotos e garupas me acenam.
    Não vou deixar esse gesto morrer, pois mesmo com os 50 já batendo na porta, sou motociclista.
    Bela matéria.

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  2. Fui para o encontro de Tiradentes e fui cumprimentado (e cumprimentei) por vários motociclistas. Alguns me deixavam no vácuo kkkk, mas eu não ligo e continuo dando um "oba" na estrada.

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  3. Saúde & Paz.
    Doa a quem doer, também cumprimento todos que cruzam estrada Comigo.
    Tenho uma CG 88,(paú pra toda obra) e uma Virago 535. Já notei que quando aceno com a Virago; normalmente todos respondem. Qdo. estou na CG... poucos respondem.
    Mas mesmo assim....vou acenando e tocando para frente... sempre.

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  4. Ando de esportiva e aceno para todos! Infelizmente os "customs" são os que menos respondem!

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