quinta-feira, 23 de março de 2017

A historia da Yamaha XT

Em outubro de 1975, durante o 21⁰ Tokio Motor Show o mundo conheceu, ainda que tímida e discretamente, o que viria a se tornar uma lenda!  A primeira, não de uma família, mas de uma saga, a Yamaha XT500.






Banner do Salão de Tokyo de 1975
Foi a primeira trail monociclindrica 4 tempos da marca, depois de uma geração de "DTs".  Pois é, hoje olhamos para ela e conseguimos ver a matriarca de toda uma geração de big trails,  categoria que sequer existia, mas, acredite caro leitor, o exigente consumidor europeu e japonês daquele 1975 - não se empolgou com a XT500.  Por um lado, os "big single" já eram um tanto ultrapassados, a Britânica BSA era uma das poucas que naquela época ainda oferecia big singles em seu catalogo, e muitos motociclistas reclamaram de sua vibração, caraterística intrínseca de um big single, pois obviamente os comparava com os então "atuais" bi e quadri cilíndricos.

Yamaha foi fiel a sua inspiração, pois a pesquisa indicava que o big single era o caminho, pois transpirava torque, robustez, simplicidade, leveza - características desejadas para essa - recém criada - categoria.  Vislumbrava nos grandes espaços não preenchidos por estradas no novo mundo o espaço para essa motocicleta.
XT500 - Simplicidade, durabilidade e baixo peso eram as palavras de ordem daquele projeto.

A XT500 era modesta em números de potencia, apenas 27hp eram extraídos de seu propulsor (em 1982 uma XL250R nos dava 22hp), mas focava em baixo peso, e fazia isso com muito capricho e lançando mão de tecnologia avançada, como tanque de combustível de alumínio, e tanque de óleo integrado ao quadro.

Dizem que é importante estar no lugar certo na hora certa, não é mesmo?  pois é, parece que o "timing" do lançamento da Yamaha foi perfeito, pois em 1979, surge, nada mais nada menos do que outra lenda - o Rally Paris Dakar, e suas historias e até mesmo nomes, se confundem dai pra frente!

A XT500 foi a campeã das duas primeiras edições desta importante competição, em 1979 e 1980, mas não foi apenas isso, em 1979 colocou 2 pilotos no pódio e no ano seguinte, grampeou as 4 primeiras posições, Cyril Neveu a levou ao altar!

Cyril Neveu em 1979 com a incrível Yamaha XT500.  note o freio a tambor na dianteira e suspensão traseira de duplo amortecedor.
Foi instantâneo, Franca e Alemanha se tornaram seus maiores mercados (curioso que o foco havia sido na América do Norte), e legiões de aventureiros elegeram Yamaha XT como a moto para suas aventuras, o Rally Paris Dakar era o combustível desta geração!

Quando surgiu, a XT500 estava sozinha, mas já no começo dos anos 1980, Honda CR500, Suzuki DR500, Kawazaki KX500 surgiram e completaram o quadro da concorrência nesse segmento. Em 1983 a XT600 Ténéré tomava o lugar da XT500, batizada com nome de um dos desertos africanos por onde o Paris Dakar atravessava naqueles tempos, estava muito modernizada, com motor já esbanjando 46hp, tanque para 28 litros, aros de alumínio, freio a disco na dianteira, suspensão mono amortecida na traseira, mas ainda oferecia apenas partida a pedal.  Uma moto simplesmente incrível!

A primeira XT600 Ténéré, ainda sem partida elétrica, incrível!  chama-la de trator é redundante! É quase um camelo!
Em 1988 recebíamos no Brasil uma versão da XT600 Ténéré,  uma evolução do modelo lançado em 1983 no Japão, já com partida elétrica, a moto era espetacular, suspensões de longo curso, aros de alumínio, tanque de grande capacidade, e um motor a prova de ataque nuclear!


10 anos haviam se passado desde o primeiro Rally Paris Dakar e os demais fabricantes foram com sede pra cima daquela fonte de vitorias e vendas...  com isso a Yamaha perdeu espaço.  BWM foi a primeira a tirar o doce da boca da Yamaha,  depois Honda veio como um rolo compressor e acabou de soterrar as vitorias da Yamaha, até mesmo a pequena Cagiva havia ganhado, e ninguém mais falava da Yamaha... que havia ficado naquelas duas vitorias!   Pois é, o Rally era o combustível daquela geração, se quisesse vender motos de aventura, teria que faze-las ganhar o Rally...

Assim os engenheiros da Yamaha voltaram para a prancheta e perceberam que a receita deveria mudar, não adiantava mais explorar aquele projeto, partiram de uma folha em branco e surgiu o que veio a ser a Super Ténéré - a geração bicilindrica da Ténéré.   Junto com a Super Ténéré, outro nome veio a tona e se confundiu com o do fabricante japonês - Stephane Peterhansel !!  Esse jovem piloto, levou a YZE750T/YZE850T (versão de corrida da XTZ750 Super Ténéré) nada menos do que seis vezes ao lugar mais alto do podium (1991/1992/1993/1995/1997/1998) fazendo com que a Yamaha XT fosse a queridinha dos aventureiros novamente. A versão de rua foi lançada em 1989 (Japão) e a ultima unidade foi vendida em 1997 (Brasil) - Revolucionaria, trouxe motor de refrigeração liquida com o chamado conceito gênesis, com os cilindros paralelos inclinados a 45 graus, cinco válvulas por cilindro, potência na faixa dos 70hp, tanque de 26 litros.

XTZ750 - uma Big Trail nos padrões atuais.  Bicilindrica, refrigeração liquida, desempenho elevado, só fica mesmo devendo em eletrônica comparada as modernas.

E então...  de 1996 (no Japão), quando a XTZ750 saiu de linha, até abril de 2010, durante nada mais do que 14 anos, os japoneses da Yamaha aparentemente estiveram dormindo, assistindo a conquista da concorrência no mercado de motos de aventura (leia-se BMW e Triumph), se por um lado o Rally Paris Dakar perdeu a graça por ter limitado a cilindrada de suas motos e obriga-las a serem mono cilíndricas, foi retirado do continente africano que dava nome ao Rally e trazido para a cordilheira dos Andes... transformado em império absoluto da marca Austríaca KTM, mas que não mais serve de espelho para os aventureiros motociclistas, devido as características das motos que ali correm, por outro lado as motos de aventura evoluíram, esse grupo cresceu e passou a percorrer cada quilometro de cada estrada (e fora dela também) no mundo inteiro...  América, Ásia, Europa, Oceania, África então nem se fale!  Se o nome XT ainda atendia a alguns mercados de menor importância como por exemplo a trail urbana XT660 (também as menores XT125, XT225, XT250, XT350), não tinha mais destaque, pois não cruzava as fronteiras...    O nome Ténéré, intimamente ligado as aventuras e aos "Globetrotters"- caiu em desuso.

Até que, em 2010, com os olhos bem abertos (com o perdão do trocadilho), nossos queridos japoneses da Yamaha, finalmente trouxeram a vida outro monstro: - a Yamaha XT1200Z - Super Ténéré.  Seguindo a receita de 2 cilindros paralelos e refrigeração liquida, mas, ficando apenas ai a semelhança com a antiga Super Ténéré, pois trata-se de uma 1200 cilindradas, com transmissão final por eixo cardã, aros de alumínio em rodas raiadas e pneus sem câmara, controle de tração, freios combinados e ABS, piloto automático, suspensões eletrônicas, aquecedores de manoplas, computador de bordo, banco regulável, para-brisa regulável, tanque de 23 litros, enfim, um requinte tal que fez valer a pena a espera de 14 anos e fez honrar o nome que carrega, e a historia que leva nas costas.

XT1200Z
O que teríamos visto nesses 14 anos entre a XTZ750 e a XT1200Z?  Teria havido ali uma XT1000?  XT900?  XT1100?   nunca saberemos!!!   Mas, se por um lado teremos que exercitar nossa mente e imaginar o que perdemos nesses anos de entressafra, o pessoal da Yamaha vai ter que correr atras do prejuízo, o mercado perdido, a confiança que foi transferida pro concorrente, conquistar novamente aquele cliente, justificar que seu produto é melhor... e tentar recuperar o tempo perdido.  Se é que isso é possível...

Algumas comparações curiosas:




2 comentários:

  1. Nem sei o que dizer. Belíssima reportagem sobre nossa amada e aclamada XT, uma moto que a Yamaha acertou mesmo a mão. Pode não ter sido(nem o serem hoje) a mais potente e veloz, mas não é essa a proposta da moto. perfeitíssima moto. Teve uma XT 550 aqui em São Carlos, por pouco tempo, e depois, em 1983, a Yamaha/Japão lançava a sonhada T600, e no final do mesmo ano, a XT 600, tanquinho de 11 litros, mas belas como todas, e como as antigas 500/550, ainda rodando mundo afora.
    Conheço uns motociclistas que possuem uma big-trail de 2 cilindros, mas não desfazem das suas XTs, sejam elas 600 ou 660. Práticas e valentes, um sonho de motocicleta.
    Parabéns mais uma vez por bela matéria.

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  2. E para relembrar a moçada que curte XT, o site alemão XT600.de, vai em galerie na barra lateral direita, tem muitas e muitas fotos, de fábrica e dos proprietários.
    O site Rallye-Tenere.net, também tem muitas matérias e fotos. De babar.
    Só acho uma coisa que a XT merece(e seus proprietários): um banco mais confortável, principalmente para o esquecido garupa.

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