quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Partida à Pedal

E aos poucos a partida à pedal caiu em desuso!...

Nos dias de hoje são raras as opções de motos com partida à pedal, a enorme maioria (excluindo-se ai motos muito básicas pra frotistas) vem equipada com a partida elétrica!

Uma simples Honda Biz já tem esse item de série, na CG125 é opcional... afinal de contas é um grande conforto!

Um item bem corriqueiro hoje, tal qual é a partida na chave nos automóveis, antigamente não era bem assim...


Assim como nos carros, esses num passado bem mais remoto, o acionamento da motocicleta era puramente mecânico e dependia do condutor (enquanto na moto era à pedal, no carro era à manivela).

Oras, hoje depende do condutor também, pois se ele não acionar o botão da partida elétrica, a moto não parte! É fato! mas a palavra dependência tem uma profundidade um pouco maior neste caso.

Cada moto tinha o seu macete, as suas manhas, pra que fosse colocada em funcionamento, mas o incrível é que o macete não era padronizado e muito menos classificado por modelo, algo do tipo:  XL250R - levanta o afogador, da uma bombada no acelerador, força no pedal que ela pega...  não, nada disso, cada unidade tinha suas particularidades... como se fossem indivíduos!

- quando cedo, manha fria, 10 bombadas no acelerador, puxar o afogador e uma pedalada forte resolvem?  talvez..

- depois do motor aquecido, se tocasse no acelerador afogava a moto, e ai meu amigo... ai a coisa pegava (no sentido figurado, pois na realidade, ela não pegava!).

As receitas eram as mais variadas, não deixavam de ser divertidas, e o motociclista que dominava essa técnica era admirado pelo grupo:

Essa foi recente: no dia em que levei minha XL250R ao Automóvel Club de Campinas para vistoria da placa preta, um dos vistoriadores, Roberto Vilarta, fez questão de demonstrar a intimidade com o modelo fazendo-a pegar usando a mão! E fez... Considere que a XL250R é conhecida por ser das mais manhosas motos daquela época pra pegar, conhecida por coices e trancos, hematomas e fraturas...

Naquela época, chegava-se ao extremo em publicar as técnicas (ou seriam mandingas, receitas?) em revistas especializadas!

- vire a chave;
- antes de abrir a torneira;
- 5 bombadas no acelerador;
- dê uma pedalada devagar;
- abra a torneira;
- mais 5 bombadas, mas em velocidade, no acelerador;
- puxe o afogador com a mão esquerda sem soltar a mão direita do acelerador que deve estar em meio curso;
- pedala com suavidade até o PMS (ponto morto superior) e depois forte com a perna direita (ahhhh direita! mas nem sempre, se estiver numa MZ250, vai ter que usar a esquerda) e vrummmm  (caramba, precisava conhecer a técnica da moto, PMS por exemplo, só pra conseguir dar a partida nela?)

Acha piada?  Mas não é! E tem mais, até mesmo os manuais do proprietário traziam, ainda que de forma mais séria e um pouco resumida, essa preciosa informação!

Engana-se quem pensa que a curiosidade para realização de tal tarefa era exclusividade daqueles tempos, veja que fazendo uma busca simples no google com as palavras "partida à pedal" e uma infinidade de videos, tutoriais, e até mesmo perguntas se ela estraga o motor aparecem:




Uma vez que o motor entrava em funcionamento, não tínhamos a injeção eletrônica à disposição não é mesmo? pois é, então tinha que ter paciência, praticamente manter-se imóvel sobre a motocicleta para que ela não morresse, se tocasse no acelerador o motor poderia morrer, se descesse da moto talvez acontecesse o mesmo... ficávamos lá, quietinhos, com cara de paisagem que ela ia firmando, firmando, firmando...  dai dava pra abaixar o afogador e tentar sair. É, tentar, não dava pra garantir nada!

Depois de um tempo, já habituados a moto, parecíamos jogadores de poker, fazendo mimicas, movimentos, gestos, simpatias até pra fazer a moto funcionar...

Afogou?? Ahhh se fosse uma CG, ou DT tudo bem, pois o pedal era leve.  Se fosse uma XLX350R, valia a pena ir atras de uma descida pra faze-la pegar no tranco, ou sentar e chorar. Porque a situação beirava o absurdo pra ser revertida!

Emprestar moto pro amigo era uma temeridade, pois apenas o dono conhecia seus macetes! E o "visitante" invariavelmente passava vergonha!

Adriano, meu amigo, tinha uma Ténéré 600, igualzinha a que tive, só que a dele estava com problema na partida elétrica. Os primeiros modelos da Ténéré 600 lançados no Brasil vinham, alem da partida elétrica, com o pedal de partida. Adriano tinha que se virar com o segundo recurso!  Haja perna!  A minha Ténéré ficou sem bateria em algumas ocasiões, era de lascar!

Isso foi mudando gradualmente, e em uma descendência de cilindradas a partir do final dos anos 80, quando as ditas motos grandes (na época as 400  a 750cc) já possuíam esse equipamento, e as média e baixa cilindradas (naqueles tempos abaixo de 400cc) não desfrutavam desse conforto!

Portanto, o prazer da partida à pedal está neste momento quase que reservado exclusivamente aos colecionadores.  Desde uma partida absolutamente fácil como uma 2 tempos (DT, Agrales, até mesmo a RD350R tinham partidas muito fáceis, leves..), até as partidas mais "técnicas" como as Honda 250 e 350cc, cada uma com seu macete.

Não posso negar que tenho enorme prazer em levar algum visitante a minha garagem e exibir-me fazendo qualquer uma das velhinhas pegar em apenas uma pedalada!  - as vezes passo vergonha, mas é raro!

Se hoje já acontece, imagine só como será daqui uns 10 anos - formar-se-a uma rodinha em torno do motociclista e sua clássica no momento da partida!

E dá-lhe no pedal!





6 comentários:

  1. Descobri seu blog a pouco tempo e estou me deliciando lendo as matérias antigas, mas me deparei com essa e te digo que comprei uma yamaha factor k1 agora em dezembro, 0KM, 125cc, freio a tambor nas duas rodas, carburada e com partida a pedal, mas no meu caso é moloezinha... Meu pai tinha um amigo que com sua XLX350 penava pra liga-la, as vezes até machucando seu joelho...

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  2. Eu gosto de ligar no pedal, é saudosismo e faz parte. Na minha época era só as consideradas grandes que tinham esse recurso.

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  3. Duvido que apaixonados por motos esportivas (conhecedores e saudosistas no assunto, cabaço não vale), tiverem oportunidade de experimentarem ligar uma especial 500 2 tempos, darem tempo para o motor esquentar e derem volta em circuitos. Mudam de idéia rapidinho.

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  4. Ligar um dois tempos no pedal, é uma satisfação sem igual. Batido e não mexido.

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  5. Minha XLX 350R basta 3 bombadas e bombar o pedal até endurecer (PMS). Só bater e pega de primeira. Não troco este prazer por nada.

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