Como funciona um carburador?

Um componente característico de uma moto clássica é seu carburador.

Muitos sabem qual é a sua função principal: pulverizar finamente a gasolina para a sua fácil combustão e ao mesmo tempo dosar a sua quantia para controlar a rotação do motor. Mas muitos, até mesmo mecânicos, que são capazes de regulá-los e consertá-los, não entendem, no fundo, no fundo, muito bem o princípio de seu funcionamento.

Adquirindo este conhecimento, você, proprietário de uma moto clássica, vai deixar uma boa impressão na próxima vez que surgir este assunto e quiser falar da sua amada que tem carburador.


Esta matéria também foi escrita para aqueles que, embora sempre tivessem a curiosidade de saber como um carburador funciona, sempre tiveram receio de fazer esta pergunta a alguém, seja por vergonha ou por temer uma explicação muito complicada.

Passo a passo, com desenhos simples e animações, tentarei revelar este segredo guardado a sete chaves.




O bom e velho carburador.

Num belo dia de verão resolvi ir para o trabalho com a minha moto. Subindo nela percebi que a bateria estava bem fraca, pois mal e mal deu para dar a partida no motor. Nos primeiros metros também percebi que o motor não estava funcionando "redondo", com a macha lenta meio instável. A uns 400 metros de casa um caminhão me obrigou a parar e o motor morreu.
Quando fui dar de novo a partida aconteceu aquilo que todo mundo teme, a bateria tinha acabado de vez. Essa moto tinha injeção eletrônica, e um problema neste sistema é que ele não funciona quando não há carga na bateria. Não adianta nem querer tentar pegar no tranco.
Lá fui eu empurrar os 200 kg de volta para casa. Esta já tinha sido até a terceira vez que fui deixado na mão por causa de bateria, pois eu rodo muito pouco com esta moto.
Montei então na minha segunda moto, uma Honda XL 600 RM de 87 com carburador. Dei partida no pedal e ela pegou sem problemas.

Eu me lembro que antes, nos anos 80, eu até tirava a bateria da minha XLX 250 R quando ia para as trilhas, pois o motor funcionava mesmo assim, graças ao fato deste carburador ter um funcionamento completamente mecânico.
Quer dizer que, se a bateria estiver descarregada, numa moto com carburador é só ligá-la no pedal ( ou no tranco ) e sair rodando, que a bateria se carrega novamente.

Deixando de lado os prós e contras ( antes mesmo de começar com os inúmeros contras ), vamos voltar à pergunta: como funciona um carburador?

Para entender o princípio de seu funcionamento temos que começar pelo motor.
Quando o pistão desce, na fase de admição, ele provoca uma queda de pressão dentro da câmara de combustão, obrigando o ar a ser sugado para dentro do motor, como numa bomba de ar.


O pistão suga o ar para a câmara de combustão


O duto principal de ar sugado pelo motor.

Já entendemos então o que faz o ar passar pelo carburador. Vamor agora nos concentrar somente neste duto aonde este ar sugado pelo motor está passando em alta velocidade, como na figura abaixo.


O ar circulando no duto principal.


O efeito venturi.

A parte principal do carburador é o tubo de venturi. O efeito venturi ocorre quando um tubo é "estragulado" em seu diâmetro.
O ar é obrigado a passar mais rápido por esta área, o que provoca uma queda de pressão no ponto mais extreito da passagem.


O ar acelera no venturi, provocando uma queda de pressão.
Este efeito também é utilizado na aviação, a asa do avião também tem uma forma baseada neste princípio. Esta depressão, que no avião ocorre em cima da asa, faz com que o avião levante vôo e se sustente no ar. Um tubo de venturi é, praticamente, uma asa enrolada.


O pulverizador.

Mas por que se deseja diminuir a pressão no duto de ar?
Se na parte mais estreita for colocado um conduite ligado a um recipiente que contenha um líquido, a depressão vai sugar este líquido, que vai ser arrastado junto com o ar em forma de uma névoa.


O líquido é sugado pelo venturi e arrastado com o ar.
Este é um fenômeno muito útil, pois é isso mesmo que o motor precisa para a combustão. Este é o princípio do aerosol, pulverizador ou spray.
Pronto, agora o motor tem tudo para funcionar, e os primeiros motores realmente não tinham mais nada mesmo.
O pistonete.

Mas e óbvio que você vai querer dosar a rotação e assim a potência do motor. Por isso é necessário instalar um dispositivo que regule a passagem de ar por este duto, como uma torneira ou uma guilhotina. Este dispositivo é conhecido como pistonete.
É um cilindro com uma mola interna que o empurra para baixo, fechando assim a passagem, e um cabo que, quando acionado pelo acelerador, o puxa para cima abrindo de novo a passagem de ar.


O pistonete fecha/abre a passagem de ar no venturi.

A agulha e o giclê.

Mas só controlar a passagem de ar não é suficiente, interessante é controlar ao mesmo tempo a quantidade de combustível que pode ser sugada, para a mistura não ficar nem pobre nem muito rica. Vamos então aproveitar este dispositivo e acoplar uma agulha a ele. A agulha, conforme a posição horizontal do pistonete, vai deixar passar mais ou menos combustível por ela, pois seu diâmetro varia ao longo de seu comprimento, variando assim o orifício entre ela e o giclê.


O orifício entre a agulha e o giclê controla o fluxo de combutível.
O giclê tem uma rosca para poder ser trocado no caso de estar danificado ou quando se deseja um com outro diâmetro interno para deixar passar mais ou menos combustível. Agora a passagem é ampliada ou restringida pela combinação da abertura do pistonete e a posição da agulha.

A cuba com a sua bóia.

0 carburador não pode ser ligado diretamente ao tanque, é necessario ter um recipiente que mantenha um nível constante de combustível dentro dele, como uma caixa de água. Este recipiente é a cuba, que vai ser equipada com uma bóia.
Conforme o combustível é consumido a bóia desce abrindo uma válvula para que o combustível vindo do tanque a encha novamente. Quando um certo nível é atingido a bóia sobe e fecha a válvula de novo.
Para que a válvula não receba continuamente trancos quando a bóia sobe e desce, ela recebe uma mola para amortecimento.


A cuba mantêm um nível constante de combustível no carburador.
A cuba também é necessária para alimentar outros sistemas que vão ser explicados mais adiante.

O sistema a vácuo.

Esta construção ainda tem um problema. Quando se abre o acelerador repentinamente, o pistonete se levanta também muito rápido, fazendo a depressão no venturi diminuir, enquanto que a velocidade do ar que vem sugado pelo motor ( devido a sua rotação ainda muito baixa ) ainda não é suficiente para provocar uma boa pulverização do combustível, tornando a mistura muito pobre. Esta situação faz com que o motor falhe no início da aceleração, engasgue ou até morra.
Ao mesmo tempo, quando se fecha o pistonete muito rápido, a mistura se torna muito rica e o combustivel não é queimado totalmente na câmara de combustão, causando os conhecidos estouros no escapamento.
Para evitar tudo isso vamos instalar um sistema de regulagem automática a vácuo do pistonete.
Quando o ar circula pelo venturi causa a conhecida depressão, que através de uma abertura ( seta em vermelho ) se propaga por dentro do pistonete. Esta depressão ( cor verde ) levanta o pistonete com a ajuda de uma membrana ( laranja ) até que haja um equilibrio com a pressão atmosférica ( cor azul ). O carburador funciona agora bem melhor, pois o pistonete não levanta sem que o motor chupe o ar com força, o que mantem a mistura sempre correta.


A diferença de pressão regula a altura do pistonete.
No acionamento pneumático do pistonete a membrana é quem levanta o pistonete com o vácuo do venturi, e não mais o cabo do acelerador.
Mas assim infelizmente não há mais possibilidades de se controlar a rotação do motor, pois agora o carburador funciona completamente autônomo.
O que é necessario agora é adicionar uma borboleta, acionada pelo cabo do acelerador.

A borboleta.

A borboleta, que é acionada pelo acelerador, estrangula, conforme a necessidade, a passagem de ar pelo venturi. Assim se há novamente uma possibilidade de se regular a rotação do motor.


A borboleta controla a passagem de ar.
Mas aí surge um problema: o efeito venturi acontece agora na borboleta, quando ela está quase fechada, pois esta passa a ser a parte mais estreita da passagem.
A marcha lenta.

O que é necessário agora é um sistema completo que leve combustível para a borboleta, para ele ser pulverizado. Esta sistema vai ser usado para manter a marcha lenta e é composto de um conduite com um pequeno giclê de ar que fica na entrada do carburador e passa por um misturador alimentado pelo giclê de lenta, fazendo uma pré-pulverização.


A marcha lenta fornece combustível quando a borboleta está quase fechada.
Este sistema é regulado pelo parafuso de ar, situado em baixo do duto principal e trabalha em conjunto com o sistema principal.
Como a idéia de pré- pulverização funciona tão bem com a marcha lenta, vamos doar ao nosso sistema principal também um giclê de ar e de combustível, assim como um misturador. Isso faz com que a pulverização fique bem mais fina.
O misturador para a pré-pulverização no sistema principal.

O afogador.

O último componente que estava faltando é o sistema do afogador. Quando o motor está frio ele necessita de uma mistura mais rica. Para realizar isso há duas possibilidades: diminuir o fluxo de ar ou adicionar mais combustível. Carburadores bem antigos tinham uma borboleta no começo do duto principal, para diminuir o fluxo de ar. Mas melhor é um sistema composto por um pequeno pistão que ao se mover dá passagem a uma quantidade adicional de mistura para ajuda na partida. Este sistema é composto de um giclê de ar, o pistão do afogador, aonde o ar passa e arrasta o combustivel vindo do giclê do afogador.


O afogador fornece uma porção extra de combustível quando o motor ainda está frio.
Este sistema deve ser fechado assim que não for mais necessário, quando o motor não está mais frio.

Pronto, agora o nosso carburador está completo!
Existem vários tipos de carburadores: simples, duplos, triplos, quádruplos, de fluxo descendente, pneumáticos, eletrônicos, mas vamos parando por aqui, sem entrar neste detalhes.


Espero que esta matéria tenha lhe ajudado a entender um pouco mais do funcionamento, da razão, da necessidade e da função de cada um dos componentes de um carburador.
Se alcancei meu objetivo, por favor não vá se entusiasmar e começar a desmontar o seu carburador, pois esta peça é realmente bem complexa, delicada e difícil de se regular. Eu me lembro muito bem de quando eu ainda era garoto eu muito curioso, fui fuçar no carburador da minha Honda XLX 250 R, sem as ferramentas ou os conhecimentos necessários. O resultado foi previsível: uma visitinha extra à concessionária Honda para o conserto do estrago. Isso sem falar na vergonha que passei e agora, numa moto antiga, achar as peças de reposição vai ser bem mais difícil...
Se tiver problemas com o seu carburador dê uma olhadinha no site http://Motosantigas.com.br











Fonte de pesquisas:
  • http://www.bikerpeters.de/Startseite/Motorrader/Technik/Vergaser/vergaser.html
  • https://doutormultas.com.br/como-funciona-carburador

Comentários

  1. Absolutamente sensacional - sou mecânico e nunca tinha lido nada tão completo sobre o carburador! Bem didático. Parabéns!

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    1. Que bom que a matéria foi do agrado. Divulge a seus colegas...

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  2. Show a matéria... Aproveitando... tenho uma CBX750F, Black '86. Quando as borboletas estão fechadas, não pode haver passagem nenhuma? Usando uma lanterna colocada do lado oposto à borboleta, não pode passar luz? E se isso acontecer, em que implicará no funcionamento do motor? Desde já agradeço.

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    1. Olá Maurício,
      obrigado pelo elogio. Uma vez que a borboleta fecha completamente a seção transversal do tubo durante a marcha lenta, o motor morreria por falta de ar para combustão. Ao longo dos anos, uma variedade de sistemas foram desenvolvidos para fornecer a quantidade necessária de ar para a marcha lenta no motor. O método mais simples foi um batente mecânico que deixa a aba um pouco aberta. Mas no seu caso há uma passagem de ar ao lado da borboleta, tipo by pass. Se a borboleta não fecha completamente a mistura da marcha lenta pode ficar pobre ou irregular. Se o problema for só impureza basta uma limpeza, já se o problema for o eixo da borbolets a resposta do motor, quer dizer, a aceleração e desaceleração, pode ser afetada negativamente.

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    2. Ok ok... No meu caso, há passagem pelas borboletas. Sendo somente a marcha lenta, não me preocuparia... Mas a moto tem resposta lenta na aceleração/desaceleração. Já chequei o eixo e não encontrei folga... A não ser que esteja tendo passagem pelas buchas do eixo, mas aí geraria folga no mesmo, correto? Pensei nos pistonetes... mas são novos... Os pistonetes deslizam pelo corpo dos carburas, no meu caso. Eles teriam que cair rapidamente ao serem levantados ou o normal são eles deslizarem? Realmente estou confuso com isso... ha hauhuah uhu Agradeço a atenção. E novamente parabéns pela matéria.

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    3. Olá Maurilio,
      é meio difícil diagnosticar corretamente o problema. Mas vc consegue fechar a borboleta com o dedo? Sente alguma resistência no final? Nunca se sabe, mas o eixo pode estar torto, ou é sujeira. Eu procuraria uma oficina, um mecânico experiente com certeza iria te dar dicas sem cobrar. O pistonete deve deslizar levemente, pois ele é amortecido pela membrana. Um mecânico que conhece seu carburador perceberá logo se há atrito no deslizamento, ou se a membrana perdeu a elasticidade...

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    4. continuando com dúvidas contate o meu xará Victor Rossigneux no site http://Motosantigas.com.br. Ele irá com prazer te ajudar.

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    5. Ok. Realmente à distância fica complicado. Aqui na minha região um bom mecânico para motores 4 cilindros é complicado... Quanto ao fechamento das borboletas, não há resistência alguma. Abre e fecha de maneira correta. Percebo que as borboletas não vedam toda a circunferência do carburador... como se estivessem gastas. Mas se isso somente interfere na marcha lenta, não me preocuparia. O lance é a lentidão de resposta ao subir ou baixar de giro. Estou até pensando em ser algo no motor (válvulas, tucho...) que possa estar interferindo. Enfim... Mas valeu as dicas e muito obrigado pela atenção.

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  3. Ótima matéria, explica de forma simples e ao mesmo tempo bem completa o funcionamento do coração do motor da moto. As ilustrações são ótimas também!!

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