O pai de todos os aventureiros

Para os entusiastas do motociclismo, principalmente o pessoal ligado nas grandes viagens e nas motos aventureiras, o ano de 1976 foi muito importante. Há 43 anos o catarinense João Gonçalves Filho – conhecido como “Gau” – partiu de São Paulo para uma das mais loucas e fascinantes viagens de moto pelo Brasil.
Gau era o típico jovem dos anos 70. Cabeludão, barba longa, óculos Ray-Ban (modelo Aviador, é claro) sempre no rosto e a peculiar calça “boca de sino”. Além da juventude, tinha a seu favor o gosto pelas viagens e a impetuosidade típica dos desbravadores. A bordo de uma, até então reluzente, Harley Davidson 1.200 deixou São Paulo com destino a Manaus (AM).
Hoje essa viagem já seria digna de registro pois a distância entre as cidades é de 4.000 km. Além da distância a estrada entre Porto Velho (RO) e Manaus – a temida Rodovia Fantasma, a BR-319 é praticamente intransponível principalmente para motos grande como aquela pesadona Harley -Davidson.

Imagina o que foi isso...

Naquela época ninguém viaja de moto. Aliás, muita gente sequer havia visto uma motocicleta. E foi nesse cenário de poucas estradas e desconhecimento que o Gau levou sua Harley na estrada e cruzou o Brasil.
Passou pelas capitais do Nordeste até chegar em Belém, capital do Pará. Falando assim, parece fácil, mas lembre-se que não existiam pontos de apoio – grandes postos como a Rede Frango Assado? Imagina, nem em sonho kkkk.
Até então, o intrépido aventureiro já havia rodado 18 mil km e estava há alguns meses tempo na estrada. Mas a grande aventura sequer havia começado.
Veja esse trecho do seu relato publicado na revista Duas Rodas daquele ano:
“Até Belém, eu já tinha rodado 18 mil quilômetros, levei duas quedas, troquei duas correntes e não furei nenhum pneu. Já tinha acertado o barco que me levaria até Manaus e resolvi passar no Jornal para agradecer a matéria. E o Menezes, um jornalista do Liberal, me informou que o pessoal do 2º Distrito Rodoviário (departamento de relações públicas) não gostou do que eu falara sobre a Transamazônica”.
 Gau, com sua Harley, ele encarou o desafio e o primeiro a rodar de moto pela estrada recém inaugurada.
Lembra que eu havia dito que o Gau é um cara destemido? Além disso, esse catarinense não tem papas na língua! Olha a resposta que ele deu para as autoridades:
“Se eles garantirem minha gasolina, ponho a Harley na estrada e será a primeira viagem de moto pela Transamazônica”. As autoridades não garantiram a gasolina, mas Gau tinha em mãos a promessa de apoio nos postos do DNER à beira da rodovia e uma poderosa carta de recomendação.
No puro estilo "Mad Max" e seu Ray-Ban, rodando de Yamaha Ténéré 600 pelo Nordeste do Brasil
A partir dai começa uma longa epopeia relatada na edição número 03 da revista Duas Rodas. A matéria foi publicada em agosto de 1976. Sugiro a leitura do PDF na sequência dessa postagem.
Se hoje os sites de viagem de moto estão “bombando” e os aventureiros se proliferam nas estradas, todos devem ao Gau. Afinal ele mostrou que é possível viajar de moto. Mesmo desafiando a lógica de percorrer estradas como a Transamazônica com uma moto feita para rodar no asfalto americano.
Claro que antes do Gau, muitos outros motociclistas fizeram grandes viagens. Mas não havia mídia e pouca gente ficava sabendo.

Um milhão de quilômetros

Com a publicação do seu relato na revista Duas Rodas, o mundo ficou pequeno para todos nós – e também para o Gau. Foram inúmeras viagens, rodando mais de um milhão de quilômetros, com motocicletas totalmente diferentes, uma dessas viagens uniu as três Américas e foi relatada no livro  "Moto é o sonho que caminha". Além do relato da viagem de BMW F 650GS, ele nos brinda com outras histórias que nos faz entender seu espírito incontrolável.
Ele continuou viajando e correu o mundo em trajetos  cada vez mais desafiadoras e originais. Percorreu muitos continentes, sempre na busca do desconhecido. Mas faltava algo especial para ele: refazer a primeira grande aventura!
Ele realizou seu sonho. Em 2018 Gau repetiu a viagem para Manaus dessa vez com uma pequena Honda XR 300, ele disse que foi para matar a saudade da estrada. Ele até refez a mesma foto com as duas motos na mesma esquina - décadas depois.
Na mesma esquina 40 anos depois
De Honda CBX 750F  rumo ao extremo da América do Sul "quem faz a moto é a necessidade do piloto" diz ele


Durante o período que trabalhei na revista Duas Rodas convivi bastante com o Gau. Editei e publiquei muitas de suas aventuras que ainda servem de inspiração para muitos de nós que amamos o motociclismo.
Hoje liguei para ele perguntei qual o pior momento da sua primeira viagem. "Foram cinco dias sozinho na estrada, sem ver ninguém". Alguns bichos, como as onças também me assustaram". Mas eu faria tudo de novo, sem qualquer arrependimento, disse ele com sua costumeira gargalhada de quem está sempre de "bem com a vida" e rodando de moto.
Nesse vídeo ele nos brinda com um recado para os amigos apaixonadas pela máquinas de duas rodas  e entusiastas do nosso site Motoclassicas80. Humilde, demonstra seu entusiasmo pelas viagens e reconhece a importância da motocicleta em sua vida.

Um abraço meu amigo!!!

Comentários

Tem um livro de uma viagem que deu origem a união das três Américas por três desbravadores combro Ford T, inclusive o mecânico era de minha cidade Bariri -SP, onde se encontra um museu que inclusive uno dos carros está para apreciação do público, para quem gosta de aventuras independente do meio de locomoção eu sugiro a leitura, Eu não sabia que era tão longe, o nome do livro.
Unknown disse…
Sou integrante de um Moto Clube Trankera MC, e gostei muito de saber da história desse nosso irmão GAU, paixão por motos e paixão por viagens assim, parabéns GAU, sou seu fã
Tabajara disse…
Eu ainda tenho a revista com a reportagem sobre o Gau e sua viagem com a Harley pela Amazônia.
Ferrari disse…
Tenho 42 anos , piloto motocicletas desde os 13 , me tornei motoviajante em 2008 , já conheço 11 estados brasileiros e estive no Uruguai . Segunda feira parto de SP para o Paraná , depois Mato Grosso e Paraguai que ainda não estive .
A estrada é uma grande paixão na minha vida hoje . Deus permita que eu possa rodar em todos os estados .
ailton disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
ailton disse…
Tenho o livro que recebi quando esteve aqui na minha casa em Sousa PB BR 230 Transamazônica
Flavio Mansur disse…
Esse cara é lendário.Mas eu gostaria de saber por onde anda o Josias Sil eira.Me tornei motociclista de tanto ler as matérias dele na Duas Rodas. E será que dá para vcs publicarem os "casos e causos"que ilustravam a ultima pagina da revista?
wado-santista disse…
Sensacional a matéria... Show demais, quem gosta de moto como eu, deve ter se emocionado, parabéns a todos amantes do motociclismo, parabéns Mestre Cícero e Gau pela vida em duas rodas...
Cicero Lima disse…
Valeu Wado!!!! O Gau merece todas as homenagens um cara gente boa que inspirou gerações
Unknown disse…
Convido os companheiros para digitarem no Google "Nos Deliciosos Anos Dourados" e saberão, de forma romanceada, minha viagem de moto do Rio de Janeiro à Paraíba (6000 km) através estradas de terra, em fevereiro e março de 1960.
Valeu a pena essa "odisseia" porque, saindo em busca da namorada que desaparecera da noite para o dia, no caminho encontrei novos romances e aventuras.
DETALHE: A namorada desaparecera por estar sendo ameaçada por pistoleiros que mataram seu pai, ex-cacaueiro em Itabuna-BA, contratados por um rival.