Moto antiga é confiável?

Carlos quando entrou na garagem do Motos Clássicas 80 ficou encantado, não sabia se curtia as paredes - abarrotadas de itens de época - ou as motos, que brilhavam devido a generosa camada de cera e aos refletores estrategicamente colocados no teto!

Tomamos um refrigerante, jogamos conversa fora relembrando aquela época de ouro e decidimos sair pra dar um passeio, já que o dia estava maravilhoso!


Voltando do passeio, enquanto almoçávamos, se mostrou interessado em ingressar nesse mundo, não para colecionar, mas para curtir o dia a dia em uma clássica, aproveitando de suas vantagens inerentes - como desinteresse pelos "amigos do alheio" por exemplo - e queria saber se a ideia dele funcionaria, o quão confiável seria a motocicleta!




A duvida é comum, muita gente me pergunta se a moto antiga "aguenta" tanto como uma moderna.

Se por um lado a tecnologia industrial evoluiu a passos largos, com projetos muito mais acertados via computador, tolerâncias minimas e processos industriais muito mais evoluídos - por outro, sabemos que, naquela época, o setor de engenharia tinha voz ativa no desenvolvimento de um projeto, e tudo, mesmo com as limitações inerentes a época, era muito robusto - feito pra durar, como dizem!

Então, seria mais ou menos como comparar pneus com e sem câmara.  Os sem câmara atuais são super confiáveis, embora ambos possam ser vitimas de um prego torto, os modernos esvaziam devagar e com isso proporcionam maior segurança, sem falar que o conserto é infinitamente mais simples.

Entretanto, do outro lado do ringue está a mecânica se opondo a eletrônica!  Uma chave de contato em uma moto de 30 anos atrás é apenas uma chave de contato, que faz - literalmente - contato entre dois fios elétricos. Se engripar, só jogar óleo lá dentro e a vida segue... se quebrar a chave, ainda resta a possibilidade de pegar-se uma chave de boca, desmontar e unir os fios, garantindo corrente elétrica.  Já as atuais são, invariavelmente eletrônicas...  chuva, sol, poeira, travessia de um trecho alagado, ou nem tanto, apenas a perda da chave original pode te colocar rapidamente no banco do carona de um guincho durante o feriado.

Duas gerações da Yamaha Super Ténéré - carburação e ausência de eletrônica de um lado, e injeção e requintes tecnológicos de outro.


A mesma coisa acontece com a carburação, da qual muitos reclamam, mas na beira da estrada com uma chave de fenda podemos drenar uma cuba, ou desencantar uma boia batendo com o cabo da mesma chave nas paredes externas da cuba... e seguir viagem. Já a injeção eletrônica, muito embora seja praticamente imune a problemas, dispense regulagens e seja capaz de tragar as mais diversas misturas que insistem em chamar de gasolina... se pifar?  acende-se uma luz no painel avisando... e dai?

Atualmente o desenvolvimento de uma motocicleta, "ouve" muito o departamento de marketing e o comercial e isso resulta em redução de custos, naquele tempo, a moto era desenvolvida como ela deveria ser, seguindo o capricho da área de engenharia, e o preço era então calculado. Isso se traduzia em robustez.

Mas, pobre Carlos, ouvia atentamente entre um gole na cerveja e um torresminho, mas não estava muito feliz, pois esperava uma resposta simples e pratica - sim ou não.

Ainda nem havíamos entrado na parte mais importante da questão.  Sim, as clássicas são, essencialmente mais robustas e confiáveis do que as modernas... mas, bem, temos que levar em conta o estado da clássica.

Não há robustez que resista as gambiarras - arames e "esgana gatos" não são parafusos. Já não é de hoje que sabemos que as peças originais do fabricante são infinitamente melhores e mais duráveis do que as do mercado paralelo. Desta forma, precisa ser feita uma analise cuidadosa do estado em que se encontra a moto antiga, quem colocou as mãos nela nesses anos todos, como foi feita a manutenção, peças internas do motor e carburadores se são originais ou não, se as mangueiras foram substituídas, os cabos de comandos, se não há ferrugem no interior do tanque de combustível - mais importante do que a quilometragem que o painel exibe, é a forma com a qual ela foi conduzida e principalmente a manutenção que lhe foi dada, e feita essa analise, podemos então dar-lhe um voto de confiança ou não.

Em minhas motocicletas eu confio, sei como estão mantidas, rodo frequentemente com todas elas, conheço cada sintoma e logo busco a cura antes que, aos poucos, a confiabilidade vá caindo.  Não as uso em longas viagens, mas em viagens curtas de final de semana, de 500 ou 600 km eu as uso sim, e invariavelmente chegam de volta esbanjando saúde.

Há um ditado entre os colecionadores e amantes das motos antigas: "a moto moderna quando quebra simplesmente para! e a clássica, mesmo quebrada segue, em menor velocidade, meio que se arrastando, mas atinge seu destino"

E como a pressa não faz parte de nosso repertorio...


Comentários

Unknown disse…
Parabéns pela matéria! Sou fã de carteirinha das ténérés 600 e, apesar de no momento estar sem uma pra rodar, não pensaria duas vezes ao optar por uma delas ao invés de uma moderna. É obvio que as modernas enchem os olhos e são deliciosas de andar, mas pra quem tem mais de 40, o brilho de uma "antigona" não tem preço. Quem comanda é o coração.
Unknown disse…
Parabéns amigo voce é uma referência no nosso motociclismo.
Fernando Amaral disse…
Grande Di, otima escrita, como sempre, e esclarecedora...sem contar a lindeza das motos que aparecem na materia rsrs.....abracao
Unknown disse…
Parabéns pela matéria. Tenho uma Sahara 97. E a uso só na estrada. Como vc mencionou, último passeio foi de 550km.
Fomos na maior tranquilidade, fui até abordado, para vender a moto.
Tabajara disse…
Que linda matéria. Também sou um apaixonado pelas antigas, e acompanho uma infinidade delas rodando e bem, mundo afora. Também sou um apaixonado por Tenere, principalmente as monos. Não exitaria de comprar uma, se tivesse grana. Uma Guzzi SP2 1000, entre outras. Vejo bons exemplos, como Suzy GS 1000 das antigas devorando asfalto. Minha CB 87 só me dá prazer. Diversas viagens, na boa, entre 80 e 100 km/h. Vale muito o estado de conservação.
Tabajara disse…
Sem contar que as motos da década de 90, tiveram uma evolução maior que os 90 anos anteriores. Uma DR big, Bandits, entre outras.
Unknown disse…
Show de matéria! Tenho algumas antigas (CB 450 Custom, RD 350 LC, VS 800) e garanto, são confiáveis 100% se bem utilizadas!