Como eu queria ainda ter aquela Agrale na minha garagem...

Cicero (à esquerda) e Marco Aurélio (de óculos escuros) na frente da Lancheria Avalanche na cidade de Praia Grande (RS), lá conheceram e ficaram amigos da família do Amilton (bermudas) dono da lanchonete.  Os viajantes não sabiam, mas as Agrale estavam influenciando uma criança...

O que você fazia em 17 de março de 1990? Eu lembro bem desse dia que, de uma hora para outra, fiquei sem dinheiro em Florianópolis (SC). Vinhamos do Uruguai com a minha Agrale SXT 27.5 acompanhado do Marco Aurélio, também de Agrale, uma 30.0. Fomos pegos na estrada pelo Plano Collor. Agora que você se situou no tempo, leia o relato e veja como uma viagem de moto é capaz de deixar rastros nos motociclistas e nas pessoas que eles encontram pelo caminho.
Já se passaram quase três décadas daquela viagem e ela ainda reflete na minha vida pessoal e profissional. Graças a ela virei jornalista especializado e passei a trabalhar na revista Duas Rodas, até então isso não é novidade.
Mas na semana passada, recebi um recado pelo Facebook que mexeu muito comigo. Mas para explicar terei de voltar no tempo novamente.
Um dia antes do decreto do Plano Collor em 1990, nos despedimos do Amilton, da dona Izabel e do seu filho Diego. O Amilton ainda nos alertou "o pessoal da Rádio Gaúcha está dizendo que o novo governo vai mexer com o dinheiro de todo mundo, tentem sacar algo no banco..."

                                                         Conselho


Agrales foram valentes na viagem até o Uruguai
Deixamos a pequena Praia Grande, pertinho da divisa de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul, e subimos na direção de Florianópolis. Na Ilha da Magia, entre uma sequência de camarão e muitas cervejas, lembramos da hospitalidade do Amilton e sua família.
Eles eram proprietários da Pizzaria e Lancheria Avalanche, onde eu o Marcão ficamos fregueses e amigos. Lá conseguíamos as dicas para chegar ao Cânion do Itaimbezinho, no Parque Nacional de Aparados da Serra. Naquela época ninguém viajava pela região. Até a badalada Serra do Rio do Rastro era desconhecida dos turistas.
Passamos por lá na ida e na volta da viagem e nos tornamos amigos da família. Até mandamos um exemplar da Revista Duas Rodas contando nossa aventura pelo Sul e Uruguai. Sim, em outras épocas, ir de moto até o Uruguai era considerada aventura.

                                                Nasce um motociclista


Amilton e o filho Diego com sua Harley
O tempo passou e perdemos o contato, até eu receber uma postagem muito legal na minha página do Facebook. Nela, o Diego, filho do Amilton se identificou e disse que sua família nunca nos esqueceu e tem ótimas lembranças de nossas passagens pela cidade. Veja só: isso há quase trinta anos!
Também disse que se tornou motociclista depois que nos viu chegando "com aquelas motos grandes e todo o equipamento que você usavam, tudo ficou guardado na minha mente, tenho certeza que ali nasceu o motociclismo no meu coração". Diego hoje é casado, tem um filho e roda pelo Brasil com sua enorme Harley-Davidson.

                 Confesso que chorei



Apesar de ser um homem maduro, de 59 anos, confesso que as lágrimas vieram nos meus olhos quando recebi a mensagem. Claro que nos falamos pelo telefone e fiz questão de mandar uma mensagem, em breve passarei em Torres (RS) onde eles moram atualmente, para aquele reencontro.
Mas a grande lição que aprendi com isso é a importância do nosso comportamento durante as viagens. Uma palavra de atenção pode ser o bastante para marcar uma criança, como foi o caso do Diego.
Hoje me arrependo de não estar com minha Agrale na garagem, iria com ela até lá. Já pensou? Aí sim seria um reencontro épico. Apesar disso, é legal perceber como um moto deixa rastros em nossas vidas, mesmo que eles surjam  trinta anos depois...


Comentários

Tabajara disse…
Que história legal. Compra uma 27.5 e volta lá.