Honda XL 500 R: uma XL com motor de trator.

Imagine: Salão do automóvel de São Paulo, 1982. Numa estande da Honda ela apresenta o seu novo lançamento: a Honda XL 250 R. Dois exemplares sujos de barro em frente a um cenário que parece ser nos pampas, aonde estas motos estão rodando no fundo, demonstrando do que elas são capazes. Eu estava lá e achei as motos lindas, embora não tivesse entendido, naquela época eu tinha só 13 anos, porque alguém iria querer viajar fora da estrada, sendo que existiam estradas.
Com 15 anos andei pela primeira vez numa XL, que era de um amigo. Eu adorei! Achei ela super alta, eu acostumado com a minha CG 125, tive a impressão que estava montado num cavalo. E o ronco do motor, achei fenomenal! Até hoje sinto saudades daquela sensação. O motor de 250 cc até que era bom, mas existia algo muito melhor da mesma fábrica no Japão: o motor da XL 500 R.

A XL com motor de 500 cc.

Mas ele infelizmente não veio a ser fabricado no Brasil, talvez por não haver necessidade decorrente da falta de concorrência na época, ou para não atrapalhar as vendas da XL 250 R, custos muito altos ou acharem que não havia mercado para uma big trail, não se sabe direito.



Retrospectiva
Nos anos 70 a Yamaha surpreendeu o mundo com o lançamento, no exterior, da XT 500. A Honda, que na épora era líder mundial, ficou a ver navios. A reação dela veio logo, com a XL 500 S. Ela já tinha mais tecnologia que a XT com um monocilíndrico de 4 válvulas, ao contrário da Yamaha que só tinha duas, e um bom sistema de contra pesos que diminuiam as vibrações do motor. Além do mais um sistema de descompressão automático também facilitava a partida, que era só a pedal. Os aros eram muito grandes, 23’’ na frente e 18’’ atrás, chamavam até a atenção. Ela fez muito sucesso, mesmo infelizmente nunca tendo conseguido chegar perto de ser o mito que a XT 500 da Yamaha foi.
A Yamaha deu o troco com a XT 550, que agora vinha também com 4 válvulas e um sistema de monoamortecimento traseiro chamado Paralevel. O design eu até que pessoalmente gosto, mas esta não foi a opinião da maioria dos europeus na época.

Prospecto da época. Sistema Pro-Link. XL 500 R e a Paris-Dakar.

Foi aí que então foi lançado um modelo mais moderno da Honda, a XL 500 R.

A XL 500 R com um visual bem mais esportivo que o da versão S.

Ela se diferenciava do modelo S pelo sistema de mono amortecimento chamado Pro-Link, herdado dos modelos de competição XR.

O sistema Pro-Link de monoamortecimento.

Além do mais um quadro mais reforçado, um sistema elétrico de 12 Volts, rodas que passaram a ser de aro 21’’ na frente e 17’’atrás, um conta-giros, novo tanque, laterais e uma mini-carenagem. O visual ficou bem mais esportivo e, continuo achando até hoje, muito bonito.

Conta-giros, mini carenagem e um novo tanque, bem mais bonito.

Passados quase 40 anos ...
eu tive a sorte de achar uma XL 500 R em uma revenda da Honda na Alemanha. A moto estava guardada há dezenas de anos dentro de um container. Com 6.800 km originais parecia que eu tinha entrado numa máquina do tempo e voltado para o ano de 1982. Embora os pneus Yokohama estivessem aparentemente bons, foram trocados por motivos de segurança. Mas eu os guardei por serem originais da época.

Manual de manutenção original  com as inspeções até a de 6.000 km documentadas.

Pneus Yokohama que não são mais fabricados.

Depois de me esplicarem na revenda como se faz para ligar a moto, dei uma volta com ela para testar. A primeira marcha foi meio difícil de engatar, assim como depois achar o ponto morto quando ela estava parada, mas tudo bem. Sabendo disso, já tento pôr no ponto morto quando ela ainda está em movimento, antes de parar.
De resto tudo ótimo. Que felicidade, a mesma sensação de que tive aos 15 anos quando andei pela primeira vez com uma XL!
A revenda Honda aonde a XL 500 R estava à venda.

O ronco do motor é muito parecido com o da XL 250 R brasileira, muito gostoso de ouvir.
Estou muito feliz com ela. As lembranças da minha juventude só uma moto destas consegue me trazer. Para falar a verdade, esta moto é para mim mais mesmo a realização de um desejo que tive quando era garoto. Eu cheguei até a comprar uma XLX 250 R e depois uma XLX 350 R quando adolescente, mas a XL 250 R era diferente, e exatamente ela eu nunca cheguei a ter.


Eu tive o prazer de poder andar algumas vezes na XL 250 R do Diego Rosa, e ela sempre despertou algo diferente em mim. Agora estou realizado com a minha própria XL.

A XL 500 R é parecidíssima com o modelo XL 250 R do Brasil. O que difere no visual é só o que as legislações de cada país obrigam a fábrica a modificar. Como por exemplo o pára-lama traseiro, que é bem mais longo. O tanque tem 10 litros, sendo um pouco menor que o nacional.

Tanque de 10 litros, com 2 de reserva.

A carenagem do farol não tem grade, pois acho que ela é proibida na Europa. Os piscas não são fixos no guidão, e sim na mesa superior. Neste modelo eles ainda são bem rígidos, sem suporte de borracha, sendo assim mais sujeitos à quebra numa queda.

Piscas fixos na mesa superior e carenagem sem grade. No mas é igualzinha ao modelo brasileiro.

As peças de plástico são de ABS injetadas, mas elas são de um tom amarelo claro pastel e pintadas, a cor da moto não está no plástico. A vantagem de uma pintura é que os pára-lamas e laterais podem brilhar como o tanque, se forem bem cuidados, até mesmo depois de 40 anos. E se riscar ou ficar feio, é só repintar. É meio difícil acertar o tom, mas peças injetadas originais novas são quase impossíveis de se achar.
Para fazer ela pegar precisa ter manha, mas até agora ela não ofereceu nenhum perigo para mim, o contra-golpe do pedal de partida foi evitado pelo sistema de descompressão.

Tratorzão, muito torque e 27 CV.

Enquanto o motor está frio ela é meio manhosa. O motor pode chegar até a de repente morrer, se você acelera pouco na saída. Mas assim que ela esquenta muda a situação. Ê motor gostoso de tocar, ótimo torque em baixas, som maravilhoso. O que eu acho bonito neste motor é que ele cobre todo o espaço no quadro, não fica "sobrando" lugar.

O motor de 500 cc preenche certinho o espaço no quadro.

Ela é bem magrinha e, comparando com as maiores motos big trail de hoje, com 139 kg a seco bem leve.
O freio a tambor é o suficiente, é só você não correr que tudo bem. Ele tem um acionamento duplo que aumenta a sua eficiência. Mas, de qualquer jeito, com uma moto antiga como essa nunca vou andar no limite. Os tempos de correr e enpinar moto não vejo necessidade de reviver.
Um ítem interessante é que a chave só sai do contato ser você travar o guidão para esquerda ou para a direita e o descanso lateral se recua automaticamente quando você levanta ela da posição lateral.

Freio dianteiro com  acionamento duplo. Pezinho com retroação automática.

Outro é que há uma manopla para acionar o descompressor, em baixo da manopla da embreagem. Segundo a fábrica, ela ajuda a pegar a moto no tranco, quando ela está no fora da estrada numa ladeira. Ela aciona a alavanca do descompressor por um segundo cabo, acima do cabo do pedal de partida, esse acionando o descompressor sempre automaticamente. O descompressor abre as válvulas de escape, facilitando assim a partida.
A manopla aciona manualmente o descompressor por um segundo cabo.

O farol de só 35 W não é ponto forte dela, a iluminação varia muito de acordo com a rotação do motor.

Alta e esbelta.

É um prazer perceber como ela chama a atenção nas ruas, até a dos jovens, quando faço meus passeios. Imagino que não é só pelo visual como também pelo som único dela.

Ouça só o ronco dela!
Sempre que guardo ela na garagem eu me viro mais uma vez e fico olhando para ela, agradecendo por ela me trazer tanta alegria. E depois de fechar o portão já fico pensando na felicidade do próximo passeio, isso é bom demais!

Por trás das cenas.

Comentários

  1. Motocicleta é a melhor coisa do mundo.

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  2. Só para lembrar, no salão de Paris, ainda no final de 82, a Honda apresentava a XL 600, com esse visual ainda, freio dianteiro à disco, e motor com 44 cavalos. Linda também. Aí, no mercado europeu, à partir de 1983, XL 600, XL 600 LM, a Paris-Dakar.

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  3. Pois é, e o interessante é que a XL 600 R, que foi vendida de 1983 a 1988, foi oferecida paralelamente com a XL 500 R até 1985! Mas ela já tinha farol quadrado e um banco que subia no tanque. E o motor era outro, o RFVC, com válvulas radiais ao invés de em "V".

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  4. Victor Gellert, aqui é o Marcos Jannuzzi, o Kareka da Escola Técnica Federal de São Paulo ! Conseguimos reunir 28 ex alunos da turma de 1984, te procuramos e não achamos ! Se puder entra em contato comigo, meu zap é +55 11 94450- 7455. Bom ter notícias suas e saber que ainda é fissurado nas XLs ! Na época da Federal você já falava delas ! Grande abraço pra ti !

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    1. Oi Kareka! Que surpresa agradável te encontrar aqui! Está vendo que maravilha? Graças a esta moto entrei em contato com vc, depois de32 anos! Bem que eu escrevi que só uma moto destas me traz lembranças e agora até amigos da minha juventude!

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  5. Pena que a Honda não trazia para o Brasil para montar aqui.

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