O Veludo Cotelê


A Caravan 79


Em 1979 eu era um moleque, com idade entre seis e sete anos, mas lembro perfeitamente quando paramos o carro da minha mãe, uma Volkswagen Variant "azul calcinha", na frente da concessionária Luchini em Jundiaí (SP). Lá dentro estava ela, uma Chevrolet Caravan bege, nova, zero km, com a alavanca de câmbio na coluna de direção e seus enormes bancos inteiriços na dianteira e traseira. Foi o primeiro carro zero km da nossa família.

Concessionária Luchini em Jundiaí nos anos 1970

Se hoje tenho 1,90 m de altura e bons cento e tantos quilos, na época era uma criança franzina. Sabe daquelas que não se alimenta direito? Magrelinho, mirradinho...  Então, consegue imaginar o quanto aquele automóvel, com quase cinco metros de comprimento, era imenso pra aquele moleque? Quando somos crianças tudo parece ser maior, talvez pela proporção...








Com 4,82 m de comprimento, maior do que uma Audi Q5 e também o imenso Ford Fusion...

A força de uma memória


No "chiqueirinho" da pra fazer uma festa!
O toque do veludo cotelê de seus bancos me acolheu imediatamente! Havia um enorme "chiqueirinho" pra me divertir lá atrás, enquanto papai e mamãe dirigiam pra qualquer lugar.

Me lembro do seu cheiro. Sou capaz de descrevê-la em detalhes, como a tampa do porta luvas com botão de metal, a parte de cima do painel, de aço, pintado na cor da carroceria e também a borracha do volante que se soltava, era presa com uns encaixes precários.

Ahh esse banco inteiriço revestido de veludo cotelê!


Pois então, você deve estar se perguntando: Por que esse maluco está falando de carros dentro de um site de motos?

Eu não coleciono automóveis, gosto mesmo das motos. Mas, se eu tivesse que comprar um automóvel antigo, seria a tal Caravan, bege 1979, com a alavanca de câmbio na coluna.  Não adiantaria estar "reformadona", descaracterizada, porque eu ia querer o banco de veludo cotelê. Tudo exatamente igual ao que está registrado na minha memória. E é essa sensação que talvez você sinta também, ao buscar alguma moto, fisicamente ou em nossas páginas.

Passei a infância e parte da juventude naquele carro. Nele aprendi a dirigir, nossa família viajou até o Uruguai com ele, depois virou carro da empresa, até que depois de um acidente, foi vendido.

É assim que funciona! 


Por mais problemas (características, na realidade) que aquele automóvel tivesse, e tinha muitas... Faltava o ar condicionado, as janelas traseiras não abriam (apenas um pequeno basculante), só duas portas. Ela tinha pouca potência pro seu tamanho, pesava mais de uma tonelada e as marchas viviam escapando. Mas eu esqueço disso tudo, penso na parte legal como a textura ao primeiro contato com o veludo cotelê, aquele "cheiro de Caravan", lembro dos bons momentos vividos e a vontade de comprar uma aparece...

Automóveis e motocicletas antigas não são para qualquer um. Se você frequenta nossas páginas e redes sociais, deve gostar das motos antigas! Que bom! Mas entre gostar e voltar a ter uma, há um grande abismo, é preciso ter cuidado. O sonho rapidamente pode virar um pesadelo! 

Hoje em dia poucos querem ficar mexendo no trambulador do câmbio, com o carro parado no acostamento, simplesmente porque a marcha encavalou. Sabemos que, depois de ter curtido um carro com ar condicionado, passar calor dentro do veiculo é desagradável. E assim são as motos também.

Uma Yamaha RD 350 LC por exemplo, pode ter sido seu objeto de desejo na infância ou juventude. Porém você ta disposto a ficar "perfumado" de óleo dois tempos? Conviver com acertos de carburação? Buscar peças pela internet como quem garimpa um tesouro?  

Falando da RD, mas qualquer outra é a mesma coisa.


Vou te contar!


Mas vou te contar! Eu acho tudo isso grande barato, uma curtição cheirar óleo dois tempos, buscar peças, acertar carburação repetidas vezes, conviver com todo esse aparente perrengue.  Em compensação conhecer caras que gostam da mesma ferrugem, que curtem falar delas, sentar e ficar admirando. Gente que as vezes recebo aqui e querem apenas ouvir uma determinada moto funcionando, se emocionam com o ronquinho, com o cheiro.  Sair pra dar uma volta então nem se fale! É o ápice da diversão! 


Mas, e a Caravan?


Bem, a Caravan eu já procurei. Procurei muito, nunca achei do jeito que eu queria,  na cor beje, com alavanca de câmbio na coluna, veludo nos bancos, impecável. Será que ela existe e está me esperando em alguma garagem? Se souber de alguma me avisa tá?





Comentários

  1. SENSACIONAL o texto, meu amigo!!! Fui lendo e traçando paralelos com minhas lembranças!!! Abração!!!

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  2. Boas lembranças. Linda reportagem.

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  3. Sensacional! Afinidade total com minhas memórias de infância! Parabéns pela sensibilidade e habilidade na escrita, nos fazendo novamente vivenciar as experiências e "cheirar" aqueles perfumes .....

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