Quem é o piloto dessa Yamaha Ténéré

Compartilhe este conteúdo

Dividindo espaço com ídolos do esporte mundial como Ayrton Senna, Maradona, John McEnroe a foto de uma Yamaha Ténéré levantando poeira no deserto, no Dakar de 1987, chamou minha atenção. Publicada no livro francês Objectifes Sports trazia apena o nome do piloto e nada mais. Aquilo aguçou a minha curiosidade, quem seria essa tal Pierre Montcoudiol? Estaria vivo, ainda anda de moto, como ele saiu daquela situação?

Mergulhei na internet em busca de resposta, nada! Instagran, Facebook… Nada. Queria entender como uma pessoa correu no Dakar, tem uma foto como esse em um livro dos mais prestigiados e ninguém consegue encontrá-lo no Universo Digital? Quem é esse piloto…

O relato a seguir, do meu amigo Ricardo Lugris, foi publicado na Revista Duas Rodas e agora divido com os amigos do Motosclassicas80. Ele traz detalhes da incansável perseguição ao piloto que misturou paixão pela motocicleta, amor pelo off-road e curiosidade. …

Monticoudiol e sua Ténéré no deserto do mesmo nome. Ele saiu de férias, tirou sua moto da garagem
e foi competir no Paris-Dakar de 1987 (foto Yann Arrthus-Bertrand)

TEXTO RICARDO LUGRIS
Pierre Montcoudiol, bombeiro militar em Lyon, aposentado, 62 anos. Casado, sem filhos. Reconhece que sempre foi apaixonado pela ação e adrenalina. Homem de poucas palavras, frases curtas e precisas como se reafirmasse sua condição de protagonista de ação, não de discursos.
Em 1987, participando como piloto independente do Rally Paris Dakar, na altura de Nega, no deserto de Ténéré, na Mauritânia, foi fotografado pelo hoje renomado fotógrafo Yann Arthus-Bertrand, em um momento extraordinário que reflete, em uma imagem intensa e bela, todo o espírito dessa competição no seu período verdadeiramente épico.
Pierre, um apaixonado por motos até os dias de hoje, possui 7 peças, sobretudo clássicas, interessou-se aos rallies Paris-Dakar desde 1986 quando participou, pela primeira vez, daquele em que se considera o mais trágico na história dessa competição, com a morte de Thierry Sabine, seu organizador, em um acidente de helicóptero.
Nessa primeira participação, lançou-se como individual, sem patrocínio, sem apoio específico e pilotando sua própria moto, a insubstituível Ténéré 600, aquele modelo que todos nós desejamos ter naquela época e mesmo, nos dias de hoje, quando se transformou em uma raridade, uma clássica, quase um objeto de culto.
Tomando férias da guarnição de bombeiros de Lyon, segunda cidade francesa onde servia, Pierre competiu em 1986 e teve que abandonar na etapa de Dirku-Agaden após ter feito uma queda grave na descida de uma duna cuja parte posterior, por efeito do vento, tinha sido varrida. Nessa queda, danificou sua moto e teve um ferimento no pulso, o que ele considera como seu pior momento no Dakar.
Pierre é hoje um homem reservado, avesso à publicidade ou às redes sociais. Localizá-lo, a partir daquela belíssima foto que intrigou o inquieto e apaixonado Cicero Lima, nosso grande guru jornalístico no motociclismo, não foi uma tarefa banal. Com paciência, comecei a contatar sites relacionados com a história do Paris-Dakar indagando sobre Pierre Montcoudiol.
Como piloto sem expressão midiática ou patrocínio um daqueles muitos que participavam dessa exigente prova pelo simples prazer da competição e da aventura, durante um par de semanas, minha pesquisa chegava a um beco sem saída.
Finalmente, na internet encontrei um renomado chef de cozinha francês que tem o mesmo sobrenome de Pierre. Decidi ligar para ele e perguntar pelo possível parentesco. Esse famoso cozinheiro, muito amável, disse-me que não havia nenhuma relação de família com Pierre mas, lembrava que um dia uma senhora veio a seu restaurante e disse que tinha o mesmo sobrenome por seu marido e que eles viviam na pequena localidade de Saint Maurice em Gourgois, perto de Saint Etienne, no massivo central da França, a uns 400 km de Paris.
Obviamente, em tempos normais, teria sido fácil para mim, apanhar a moto e ir até lá em poucas horas para fazer a pesquisa localmente.
Infelizmente, os tempos são diferentes. Com o confinamento obrigatório na França, estamos limitados em termos de movimentação. Sendo assim, dirigi minha pesquisa para a comunidade indicada pelo cozinheiro.
Pelo mesmo motivo, a pandemia, a Prefeitura do pequeno lugar encontra-se fechada e o telefone não atendia. Decidi então começar a ligar para todos os números de telefone cujo proprietário tinha Montcoudiol como sobrenome. No total, uns 25 números, deduzi que a família parece ser numerosa.
Nos dias que correm, o telefone fixo na França, como em qualquer lugar, é muito pouco usado e as ligações que recebemos em casa são, de maneira geral, para nos vender algo. Assinatura net, sistema de calefação, painel elétrico, janelas duplas, etc.
Assim, a cada ligação, eu tinha que explicar em dois segundos que não estava vendendo nada e que procurava um antigo piloto de…… paf! Telefone desligado.
Mesmo assim, insisti e em torno da 15ª ligação, consegui que um simpático senhor me escutasse e ao final de minha pergunta, ele confirmou que Pierre era seu filho, mas que ele se encontrava nas montanhas do Jura, a pouca distância de sua cidade e passou-me o seu número de celular.

Finalmente, falei com ele

Consegui finalmente, após varias mensagens de voz e vários SMS, sem que ele me respondesse, falar com Pierre Montcoudiol ao telefone.
Usando de minha experiência como vendedor, tratei de criar imediatamente um vínculo e uma relação com ele e, obviamente, o assunto seria a moto e a aventura.
Deixei claro que nosso interesse era de conhecer o que havia por trás daquela extraordinária foto tirada em 1987, e poder prestar uma homenagem às centenas de motociclistas anônimos que participaram e que fizeram o Dakar ser o que é hoje em tempos onde a coragem, a força física e a inteligência eram pontos essenciais para entrar nessa competição. Muitas vezes, esses atributos não eram suficientes para “sair” dela.
Curiosamente temos a mesma idade, 62 anos e, em 1987, em muito menor escala, eu também participava de enduros no Brasil. Pierre, entretanto, ao telefone se mostra relutante e avesso a contar sua experiência.
Continuamos conversando de forma leve, onde eu lhe pergunto sobre como era feita a navegação naqueles tempos já que o hoje óbvio GPS veio muito mais tarde.
Ele contou-me que, além do “road book” distribuído a todos os competidores pela organização, onde em suas páginas encontrava-se o roteiro do rally, ele particularmente utilizava mapas geográficos dos quais se servia muito, acompanhados de uma bússola para orientar-se. O detalhe mais interessante é que, para utilizar a bússola, Pierre precisava distanciar-se da moto para que a indicação magnética não fosse influenciada pela motocicleta e para não correr assim, o risco de tomar uma direção equivocada perder-se no deserto.
Também me contou que, de qualquer forma, como piloto independente e correndo em uma categoria menor da competição, ele tinha a possibilidade de acompanhar o rastro das motos e veículos profissionais na superfície do deserto – isso, se não houvesse vento, disse ele com um certo prazer na lembrança.
Também reconhece que, como amador, tinham o hábito de fazer paradas mais frequentes para verificar a navegação com o cuidado de não ficar na trajetória dos veículos que circulavam em alta velocidade. Algumas vezes foi obrigado a rodar durante a noite e, particularmente lembra da dificuldade causada pela poeira erguida pelos competidores, principalmente carros e caminhões e de ser obrigado a rodar a baixa velocidade em superfície de areia macia e instável o que torna a moto quase impossível de pilotar.

Com a moto própria

Pierre teve três participações no Dakar, 1986, 1987 e 1990. Sua melhor lembrança foi neste último onde, em Nega, na Mauritania, uma etapa muito difícil, quase todos os competidores tiveram dificuldade em encontrar a “página” do road book e se encontraram bloqueados. Pierre, decidiu esquecer o “road book”, deu a volta na montanha que os bloqueava e encontrou seu caminho, chegando em primeiro lugar nessa etapa.
Sua moto de opção foi sempre a Ténéré, 600 cc, e em 1986 ele participou com sua própria motocicleta e em 1987 a moto, de linha, foi cedida pela Yamaha da França. Já bombeiro militar naquela época, tirava suas férias no mês de janeiro para poder competir na África.
Apesar de contemporâneo do brasileiro André Azevedo no Dakar, não teve realmente contato com ele, mas diz lembrar de seu nome em várias ocasiões.
Em outro detalhe curioso que mostra a paixão que essa competição pode provocar, Pierre contou-me que na condição de piloto independente em 1986 e 1987, as peças necessárias para o necessário reparo da moto ao final de cada etapa, chegavam em um caminhão comum. As etapas terminavam em torno das 18 ou 19h, mas o caminhão chegaria apenas à meia noite, ou mesmo mais tarde.
Como cada piloto independente era também o mecânico de sua própria moto, eram obrigados a descansar na chegada da etapa por algumas horas até a chegada do caminhão com as peças e reparar a moto durante a noite para partir, após um rápido café-da-manhã, ao amanhecer. Diante de meu assovio de admiração, muito modestamente admitiu que “nunca estaremos cansados para fazer o que amamos”.
Entre 1987 e 1990, Pierre participou, com a mesma Yamaha Ténéré 600, de outras provas igualmente desafiadoras na Tunísia, no Rally dos Faraós, no Egito e no Rally Atlas, no Marrocos.
Sua última competição foi em 1997, no chamado Master Rally que, partindo de Paris, através da Turquia, Iran, Turcomenistão, Uzbequistão chegava até Moscou. Nesse ponto, tivemos uma bela discussão já que eu conheço esse roteiro por te-lo feito em 2008. Orgulho-me de dizer que cruzamos os mesmos desertos naquela região. Eu, seguramente, a uma velocidade muito mais baixa.
Pierre hoje, na tranquilidade de sua merecida aposentadoria, é um colecionador de motos clássicas, sobretudo japonesas, e participa de encontro de motos antigas.
Nossa conversa telefônica chega então à célebre foto tirada por Yan Arthus-Bertrand no Dakar, onde naquela impressionante imagem Pierre, com uma grande mochila nas costas luta para retirar sua moto de número 15 em uma duna no deserto. Desmontado, ele empurra sua número 15 que com a aceleração a fundo, levanta uma imensa cauda de areia em um efeito belíssimo que traduzirá para sempre a essência do que o Dakar tem de mais profundo: a tenacidade de seus participantes.
Pierre conta que ao chegar a essa duna teve que reduzir a velocidade pois havia ali um grupo numeroso de jornalistas e, segundo ele, era sabido no Dakar que os jornalistas sempre se posicionavam em lugares perigosos para poder fazer fotos de maior impacto.
Ao reduzir a velocidade na areia macia, perdeu tração e precisou desmontar, tendo mesmo que pedir aos jornalistas que o ajudassem a empurrar a moto para, assim, ganhar novamente velocidade e poder repartir, continuando a prova.
Meu interlocutor teve conhecimento dessa foto que pôde ver publicada na revista de esporte mais prestigiada da França, “Equipe”, há alguns anos mas não conhece o livro “Objectifs Sports”, onde essa foto se encontra em grande evidência como um momento inesquecível do esporte, ao lado de imagens dos imortais, Nikki Lauda, Airton Senna e de Michel Platini, até hoje um grande ídolo Francês.
Pergunto a ele se ele recebeu uma cópia dessa foto da parte do fotógrafo ou se teve interesse em obtê-la. Modestamente, como parece ser sua grande característica, ele me diz que jamais obteve a foto e que tampouco foi contatado para o lançamento do livro em questão. Tampouco teve interesse em pedi-la ou procurar por ela.

Falsos heróis

Assim, discretamente e de forma muito simples e direta , preferiu recusar a meu pedido que me enviasse uma foto atual sua, o que mantém aceso o mistério daquele participante anônimo e desconhecido que um dia ousou enfrentar, por sua conta e risco, o mais difícil rally motociclístico do mundo.
Em tempos como os atuais, onde a tecnologia e a capacidade de criar falsos heróis ou “santos de pau ôco”, despedi-me, ao telefone, com grande emoção, de um homem simples que viveu extraordinários momentos de vida como se eles fossem absolutamente banais e correntes.
Em sua profissão ele com certeza terá vivido também momentos de grande intensidade que muito provavelmente guardará para si, sem fazer disso um motivo de conversa ou de evidência.
Após agradecer e despedir-me e, ao desligar o telefone, fiz uma pequena promessa para mim mesmo: Tentarei fazer o possível para contatar o hoje famoso Yann Arthus-Bertrand, fotógrafo, ecologista e apresentador de televisão, para lhe pedir a oportunidade de ter uma reprodução daquela foto de Pierre Montcoudiol, tirada no deserto do Ténéré em 1997, objeto do fascínio de Cicero Lima e, por sua influência, o meu.
Se conseguir a foto e puder transformá-la em um pôster, terei o prazer de com minha moto, levá-la a Pierre, o anônimo piloto de um Dakar que nos fez sonhar.
E admirando essa foto, poderemos compartir uma cerveja, ou uma garrafa de vinho, como é mais ao gosto dos franceses e falar de motociclismo, dessa paixão estranha, por muitas e muitas horas.

Ricardo Lugris
Chantilly, 29 de Abril de 2020.

nota da redação: se você leu até aqui merece saber que a história teve uma continuação emocionante que, em breve, será publicada aqui no Motosclássicas80


Compartilhe este conteúdo

16 thoughts on “Quem é o piloto dessa Yamaha Ténéré

  • blank

    Saúde & Paz.
    Emocionante demais esta historia!!!! Parabéns.
    Me emocionei, literalmente.
    Valeu!
    Abraços.

    Resposta
    • blank

      Que show de história. Que show de imagem. Lembro dessa foto, minhas revistas estão aqui guardadas, inesquecível fase do Dakar. Sensacional. Aguardando a continuação.

      Resposta
      • blank

        O que despertou em mim o interesse na matéria, foi a Ténéré. Como tenho uma, matérias sobre ela sempre desperta minha atenção.
        Mas a medida que se faz a leitura, ela se torna tão interessante que a gente não consegue parar de ler.
        Parabéns!

        Resposta
    • blank

      Parabéns pela reportagem e ao piloto que fez por amor e não para se aparecer. Grande abraço.

      Resposta
  • blank

    Show de matéria; e deu uma saudades da Ténéré que tinhamos em casa décadas atrás. Nunca fiz um milésimo que esse francês fez com a dele, mas eu sempre me sentia um “aventureiro” quando subia naquele camelo azul e amarelo, mesmo quando o maior desafio fosse apenas faze-lá pegar no pedal. Quando criança e adolescente eu não perdia uma Motoshow, principalmente aquelas que faziam a cobertura – de forma inigualável – do Dakar.

    Resposta
  • blank

    Show de história e de matéria. Parabéns! Deu até vontade de ter um quadro dessa foto aqui também. Abçs e sucesso.

    Resposta
  • blank

    Mais um texto excelente do Ricardo Lugris, mais um furo do Cícero, parabéns aos dois e claro ao Pierre!

    Resposta
    • blank

      História incrível, muito bem escrita e desvendada pelo Ricardo Lugris!! O mais incrível é encontrar um cara simples e discreto por trás de uma imagem tão exuberante!!

      Resposta
  • blank

    Show! Sempre me identifico com os anônimos, porque competem por pura paixão!
    Ainda mais de Ténéré 600, moto que é minha companheira a mais de 30 anos e
    ainda será por muitos mais!!

    Resposta
  • blank

    Fiquei interessado no desenrolar da história, tem a sequência?

    Resposta
  • blank

    Muito legal a historia !!! Tenho ainda uma tenere q uso quando me sinto aventureiro . Claro que estou muito longe dessa aventura contatada , mas nossa imaginacao pode tudo .

    Resposta
  • blank

    Essa emoção não pode desaparecer do mundo em que vivemos.

    Resposta
  • blank

    Tive uma xlx 350 89 branca e vermelho, como amei aquela moto andei com ela todos os dias e finais de semanas por 5 anos inclusive idas de Cosmopolis a Ubatuba com minha esposa mais bagagens, aquele bom farol quadrado nas noites de verão na estrada muito bom, teria outra. O pedal de partida duro sempre me passou a segurança de que não era qualquer um que a levaria, hoje tenho uma XRE 300. Que saudade da velha xlx.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *