O Herói acessível

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O Peroba

Há mais de 20 anos, Adriano Américo, grande amigo de infância ia assistir as corridas de Formula 1 na casa de seu vizinho, que havia sido piloto de Fórmula 1 em outra época. Luiz Pereira Bueno, Luizinho como a gente falava, ou Peroba como era mais conhecido, era um cara sensacional, gentil, calmo e, segundo Adriano me contava, fazia comentários precisos a cada corrida, confesso, eu sentia uma pontinha de inveja. Eles eram vizinhos de parede praticamente, moravam em apartamentos no mesmo prédio. Luizinho faleceu há mais de 10 anos, mas suas histórias ficaram e com frequência a gente fala nele.

O Paris Dakar e o Luiz Careca

Uma estatística da organização da prova diz que somente 5% dos que participam pela 1ª vez terminam, e só 1% com vitória, eu faço parte destes 1%, graças a estrutura que recebi da equipe BR Lubrax antes e durante o rali.

Luiz Mingione

Passei a infância decorando meus cadernos de escola com imagens retiradas das revistas, a maior parte delas motos imensas e pilotos incríveis durante o Paris Dakar ou o Rali dos Faraós, eu viajava naquelas dunas e sonhava um dia poder competir também, o que não aconteceu.

Eis que um dia, tenho a noticia que, não no apartamento vizinho, mas no bairro ao lado, residia um piloto remanescente da época africana do Paris Dakar, e certo dia ele visitou a nossa garagem. Luiz também, Luiz Mingione, conhecido como Luiz Careca (apelido auto explicativo). Luiz Careca não era apenas o piloto do Paris Dakar, sua historia foi muito além disso, se você já teve ou tem uma Honda Biz, você está sentado em uma criação dele.

Gosto particularmente dessa foto do Luiz Mingione em ação no Paris Dakar de 2002, pois nela aparece bem a lateral com number plate que veio parar em nosso acervo

De 434 veículos que largaram de Arras ao norte de Paris, 170 eram motos das quais no final somente 53 chegaram em Dakar, a minha 250 foi campeã da categoria Super Production até 250cc e 43a na geral, entre motos de 400 a 900cc.

Luiz Mingione

As paredes do Motos Clássicas

A gente costuma dizer quando recebe algum visitante na garagem do Motos Clássicas 80, que o verdadeiro tesouro está nas paredes, e não nas motos. É fácil de explicar: Moto antiga tem por aí, garagens enormes, coleções imensas, muito mais importantes do que a nossa. Mas, é nas paredes que a história está sendo contada, em fotos, documentos, camisas, autógrafos, peças – há de se ter paciência para apreciá-las e entender de fato o que representam. Aqui no site a gente vai, aos poucos, contando essa história também, uma forma de dar vida e deixar documentada.

E hoje justamente, a gente vai falar da parede e das historias. A parede por ter recebido ontem de presente do Luiz Careca dois itens sensacionais, a jaqueta de treino dele (usada é claro) e uma das tampas laterais da moto, com number plate, surrada pela competição, e não posso me esquecer de dizer, foi nessa edição de 2002 que Mingione foi Campeão em sua categoria (até 250cc) com uma Honda XR250 levemente adaptada.

Aqui posto foto da jaqueta e number plate (que estarão em breve em nossas paredes) e, daqui pra baixo você lê o texto em primeira pessoa, onde Luiz Mingione conta como foi sua experiência no maior rali do planeta:

A aventura do Paris Dakar

O sonho

Nestes anos todos, desde que comecei no off road, em 82, participando de provas de Enduro, e rali, no Brasil, Japão, ou fazendo trilha com amigos em lugares inesquecíveis, a minha maior aventura, emoção e lição de vida, sem duvida, foi a minha participação no Rally Dakar em 2002 em uma grande equipe.

A frustração

O sonho de participar do Rally Dakar já tinha mais de dez anos, e finalmente em 2000, finalmente depois de muitas dificuldades em conseguir patrocínio e participar de uma grande equipe, a BR Lubrax, quatro dias antes do embarque para a França, sofri um acidente de trânsito em São Paulo e fraturei a clavícula, infelizmente o sonho foi interrompido, todo o trabalho de um ano, a preparação, os treinos, e eu caído no asfalto do trânsito de São Paulo

A persistência

Passada a fase de recuperação física e psicológica depois do acidente e da grande frustração de não ter ido em 2001, comecei tudo de novo, a grande batalha para conseguir patrocinadores para 2002, o Rally Dakar e uma prova muito cara….

A motocicleta

A escolha da motocicleta para mim seria um grande desafio, pois tornaria ainda mais difícil esta primeira participação, fazer o Rally Dakar com uma motocicleta de 250 cilindradas, exigência do patrocinador que queria usar a imagem do Dakar, a prova de rali mais difícil do planeta, para comprovar a robustez e resistência do modelo, e lá vou eu , inscrito na categoria Super Production até 250cc.

A prova

No percurso europeu da prova, a minha maior dificuldade foi o inverno rigoroso, passei muito frio, durante os deslocamentos e especiais de circuito para definir ordem de largada.

Já na África, quando a prova começa de verdade, a maior dificuldade era transpor as dunas altas, de areia muito fofa e cumprir o tempo das etapas, apesar de estar pilotando uma motocicleta perfeita e confiável do ponto de vista mecânico, ela era menos potente e veloz que a maioria das motos que participam da prova, todas acima de 400cc.

Eu precisava tomar cuidado para não estourar o tempo limite das etapas, pois com três penalizações de horário excedente poderia ser desclassificado da prova.

Tinha que ser regular, não perder tempo nos abastecimentos e ter cuidado com a navegação para não ficar perdido no deserto e também poupar a moto, para não ficar pelo caminho.

Em dezessete dias fui penalizado apenas uma vez, em uma hora, foi em uma especial para ser cumprida com tempo limite de 14 horas,  era uma etapa com muita erva de camelo, para se ter uma ideia, é um “morrote de areia” de 1, a 1,5 metro de altura com uma moita de capim em cima, agora imagine isso uma ao lado da outra 360 graus a perder de vista.

Neste dia andei no final do trecho uns 100 km a noite o que me obrigou a andar ainda mais lento, daí a penalização

Durante o trecho africano, depois do Marrocos, eu tive problemas com a navegação, nos trechos de muita duna, só conseguia completar o final das etapas a noite, reduzindo a visibilidade das referências do road bok.

Tivemos que cumprir duas etapas com GPS bloqueado, somente função bússola era autorizada para a navegação em pleno deserto, para complicar tinha também as tempestades de areia que impediam de localizar referências e rastros das primeiras motos.

No briefing da noite anterior as especiais com GPS bloqueado, recebíamos um código para desbloquear o aparelho no caso de ficar perdido no deserto, no final da etapa a organização conferia e os pilotos que usaram o código recebiam uma penalização de 6 horas.

Os tombos

Sim,levei vários tombos durante os dezessete dias da prova, mas dois em especial foram feios, um deles terminando um trecho a noite, a uns 40 km do acampamento, cai dentro de uma vala, com 1,00 m e pouco de profundidade e uns 2,00 m de largura + ou – , bati o rosto, as mãos e o peito no chão com muita força, foi tudo muito rápido.

Outro foi no Marrocos em uma região com muitas pedras, a mola que segura o descanso lateral se soltou e fez uma alavanca no chão de pedras numa curva a moto capotou de frente, bati a cabeça com muita violência, fiquei um tempo completamente atordoado, o tombo também estragou bastante a moto.

As dunas

Uma das etapas difíceis do rali foi em uma especial antes do dia de descanso, no décimo dia de prova, vários pilotos com motos de grande cilindrada ficaram pelo caminho, presos nas grandes dunas chegando somente na manha da largada do dia seguinte ao dia de descanso, praticamente fora da prova.

Eu acho que neste dia levei um pouco de vantagem, estava com uma moto mais lenta para as etapas rápidas, mas mais leve, não atolando tanto nas dunas altas e fofas deste dia.

Eu procurava sempre encontrar o melhor caminho, subindo as dunas na diagonal, parando no topo e procurando o próximo cordão de dunas tentando achar a melhor opção, andar por entre as dunas na parte baixa também era perigoso, poderia ficar preso, é como um labirinto depois de entrar, muitas vezes não da para voltar pelo mesmo caminho e ai é muito fácil perder o rumo.

Procurava me controlar e tomar cuidado para não cometer erros e colocar a minha prova em risco, faltando pouco menos da metade das etapas para chegar a Dakar.

Tem ainda as dunas “funil” se você cair em uma delas como aconteceu comigo, sorte que uma das “paredes” não era muito inclinada, e depois de empurrar a moto por uns 40 minutos na areia fofa com o motor ligado consegui sair, naquele dia tirei forças do “além”, força que nem eu sabia que tinha, não podia deixar todo meu sacrifício e dificuldades em estar no rali,

terminar ali dentro daquele “funil” de areia no meio do nada.

Solidariedade

Ajudei alguns pilotos durante a prova….

Em uma etapa de savana, pista rápida, tinha um cara a uns 2 km à minha diagonal esquerda, abanando a camisa, varias motos passando por ele, e eu também, quase passando, e ai pensei,

Amanha posso ser eu nesta situação, fui na direção dele, o cara estava sem gasolina, faltava poucos kms para terminar a especial, e eu ainda tinha combustível suficiente pata terminar.

Em um outro dia, ajudei um japonês, também sem gasolina faltando 30 km para o final da etapa.

Mas a situação mais triste, foi em no deslocamento a noite de uma das etapas maratonas de 1500 km,

Um piloto francês andando pouco mais de 500mts a minha frente, caiu em uma vala, parei minha moto longe de onde passavam os outros veículos, ele estava caído em baixo da moto e gritava muito, arrastei o cara longe da moto, cobri-o com a manta térmica, ele estava com o tornozelo quebrado, voltei a sua moto e acionei a sua baliza eletrônica, ela emite um sinal via satélite para chamar socorro, fiquei uns 50 minutos esperando à ajuda chegar, enquanto ele estava sendo atendido me dizia “arrive a Dakar, arrive a Dakar”, fiquei emocionado, quando voltei a prova, ainda estava escuro e já estavam passando os caminhões, foi difícil pilotar entre eles, além de serem monstruosos, faziam uma poeira infernal, consegui chegar a tempo para a largada da especial já amanhecendo, mas sem ter tempo para poder descansar um pouco antes da largada

Chegando a Dakar

O meu objetivo inicial e da equipe era terminar a prova, esta era a minha primeira participação,

minha estratégia era focar somente a etapa do dia e não me preocupar somente com o final do rali.

São 17 dia de competição, com 1 de descanso, é uma prova desgastante, física e emocionalmente, você é minado dia a dia pelo cansaço, medo, preocupado com a resistência da moto, noites mal dormidas, comendo pouco e mal, pilotando 12, 14 hs por dia, muitas vezes sem poder tomar um banho descente, em fim varias dificuldades que tinham que ser administradas para poder chegar ao meu objetivo.

O Rally Dakar de 2002, foi muito difícil como de costume, segundo opinião de meus companheiros de equipe e outros participantes.

De 434 veículos que largaram de Arras ao norte de Paris, 170 eram motos das quais no final somente 53 chegaram em Dakar, a minha 250 foi campeã da categoria Super Production até 250cc e 43a na geral, entre motos de 400 a 900cc.

Uma estatística da organização da prova diz que somente 5% dos que participam pela 1ª vez terminam, e só 1% com vitória, eu faço parte destes 1%, graças a estrutura que recebi da equipe BR Lubrax antes e durante o rali.

Já em Dakar, na rampa de chegada, em frente ao Lago Rosa, foi difícil conter a emoção, terminar com vitória, o rali mais difícil do planeta, depois de tantos problemas e dificuldades, antes e durante a prova, isso era a grande prova de que acreditar no sonho de muitos anos e fazer realizar tinha sido possível.

O Rally Dakar de 2002, para mim foi uma grande aventura, foi uma grande experiência de vida, e de emoções que vou levar na minha lembrança para sempre, aprendi a conhecer meus limites nas mais difíceis situações, conheci culturas lugares e pessoas que nunca mais vou esquecer, senti medo, apreensão, mas também muita alegria por terminar o rali mais difícil do planeta e realizar um sonho…..


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8 thoughts on “O Herói acessível

  • Fantástica a história do Luiz Careca. Incrível exemplo de superação. Parabéns. Parabéns Luiz e parabéns Diego. Grande abraço.
    Diego: Como faço para conhecer de perto o seu acervo?

    Resposta
    • Antônio, obrigado pela mensagem e interesse. A garagem está em reforma, as motos amontoadas em um canto. Mas em breve ficará pronta e, embora não aberta ao público, vamos de alguma forma abrir para seguidores do Instagram e Facebook em algumas ocasiões.

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  • Fantastico, a gente le e tem vontade de ler de novo de novo de novo imaginando as cenas, situaçoes, dificuldades a cada centimetro de prova… porisso digo que a epoca passada e de OURO. hoje em dia tudo pasteurizado….
    Parabens pelo trofeu.
    Objeto de muita historia, suor e planejamento para chegar no final de uma prova tao dura..

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  • Bom dia amigos! Que bela e merecida homenagem ao amigo Luizinho, assim chamado desde a época que nos conhecemos na itautec.
    Detalhe: o cara NÃO andava de moto!!! Hehehehehe, achava perigoso ohhh!
    Um belo dia ele aparece no departamento dizendo que tinha brigado com a namorada e batido o carro… Humm, como a grana era curta para ajambrar minimamente o Fiat 147, dava para comprar uma DT180! O quê??
    Achamos a moto, arrumamos uma botina e um capacete…. marcamos a ida a Alphaville para que conhecesse as belas trilhas que existiam lá, bom o resto da história já virou lenda, rapidamente o “gafanhoto” tirou a pedra da mão do mestre hehehehehe
    A única coisa q pedi foi um vidrinho com areia de Dacar! Fui regiamente atendido!

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  • Beleza de reportagem. O Dakar é mesmo um show de rally, para se guardar pra sempre. Ainda mais para quem teve a felicidade de participar.

    Resposta
  • Sáude & Paz.
    Diego;
    Me passe um endereço de correspondência!
    Quero lhe enviar uma revista 2 Rodas que tenho!
    Ficará melhor em seu acervo.
    Abraços.

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    • oba! obrigado.

      Espaço Camila Ferreira
      A/C Diego Rosa
      Al Lucas Nogueira Garcez, 1200 Sala 2
      Vila Thais
      Atibaia, SP
      12941-650

      MUITO OBRIGADO!!!!

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